segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Religião e Política: acreditar e praticar para transformar. João Crispim Victorio - CEBI-RJ - Sub regional Campo Grande

Religião e Política: acreditar e praticar para transformar.
João Crispim Victorio[i]

Do dia em que nasci até meus dez anos de idade, mais ou menos, frequentei a Umbanda[1], religião dos meus pais e avós. Minha avó era a Ialorixá do terreiro, ou seja, a mãe de santo, a responsável pela feitura dos médiuns, os filhos de santo. Com eles aprendi muitas coisas importantes relacionadas aos valores morais, aos bons costumes e ao respeito às pessoas, principalmente com as mais velhas, detentoras das sabedorias de vida acumuladas.
Aprendi também a respeitar os animais, seres considerados por eles, divinos, como as plantas, que têm o poder da cura, enfim, de modo geral, a respeitar a natureza, porque tudo é natureza e ela provém de Deus, o Criador.     Quando me tornei adolescente, fase que na maioria das vezes perdemos o interesse por quase tudo, comigo não podia ser diferente, aos poucos fui me afastando e, até os meus dezessete anos, não quis saber de nenhuma religião e questionava até mesmo a existência de Deus. Não me tornei propriamente um ateu, mas num agnóstico teísta[2] por acreditar, de certa forma, na existência de Deus.
Foi na minha juventude, depois de ter vagado por uns três ou quatro anos, que tive uma reaproximação com a igreja católica. Digo reaproximação porque, ainda quando criança, meus pais nos orientavam, eu e meus irmãos, a fazer o catecismo na paróquia do bairro onde morávamos, posso considerar essa como minha primeira experiência de sincretismo religioso[3]. Mas o que meus pais não sabiam é que naquela época eu faltava mais do que comparecia aos encontros da catequese. Quase sempre desviava o caminho da igreja, achava mais interessante ir jogar futebol, bola de gude ou impinar pipas. Mas foi exatamente ali, na paróquia Nossa Senhora Aparecida, que iniciei, no auge da minha juventude, a participação na comunidade. Esta foi, para mim, uma fase muita rica e significativa, pois foi a partir dessa experiência que pautei minha vida em família e as ações sociais tomando por base a pessoa de Jesus Cristo.
Posso dizer, então, que toda minha formação intelectual e de caráter têm suas origens, primeiro na família e na escola, depois na Umbanda, religião dos meus pais e avós, e no catolicismo, minha religião por opção, mais propriamente dentro da Teologia da Libertação[4]. Sendo assim, considero ser importante, mas não fundamental para se viver em sociedade, a participação em uma religião. No meu caso foi por meio da igreja católica, por exemplo, que aprendi a participar de reuniões e de grupos; participei de cursos de formação ética, teológica e política; aprendi a pensar no coletivo; a lutar por uma sociedade justa e fraterna e a vivenciar minha fé[5].
Uma das primeiras coisas que compreendi iluminado pelos Evangelhos, foi que Jesus Cristo veio para libertar os oprimidos do poder opressor, seja ele qual for. Portanto, sendo um trabalhador assalariado, morador da periferia, sem acesso à educação e a saúde de qualidades e tolhido das atividades culturais e de lazer, sou um oprimido. Então precisava identificar o poder opressor, para tanto, além da minha fé era necessário me organizar no sindicato, enquanto trabalhador, na associação de moradores, enquanto morador de um bairro e no partido político, enquanto cidadão consciente de seus direitos e deveres, pois na minha concepção, a fé desprovida de ações, é morta. Isso significa dizer que religião e política devem caminhar juntas, não falo da religião descomprometida com o reino de Deus, nem da política determinada pelos opressores e muito menos digo que devemos transformar as religiões em partidos políticos ou vice-versa. Mas cada um na sua e a sua maneira podem contribuir para que a fé oriente a prática no sentido transformador rumo à construção de uma sociedade mais igualitária.
Mas será isso possível diante dos problemas crônicos de corrupção que assolam toda a nossa sociedade brasileira desde a colonização, causando divisões e mais divisões e, consequentemente, o afastamento das pessoas das discussões e organizações políticas, ideológicas[6] e sociais? E, até que ponto tudo isso não atinge e causa, também, divisões entre e dentro das muitas religiões que se estruturaram no nosso país? Quem de nós já não ouviu a máxima que política, religião e futebol não se discutem? Isso, na verdade, têm consequências drásticas, pois causa um dos piores problemas, já que vivemos uma democracia representativa[7], o desinteresse pelo processo político-partidário e por fim, das eleições. Quando deixamos de conhecer os partidos políticos e a ideologia que representam, fica parecendo que todos os partidos são iguais, sendo assim, pela lógica, todos os políticos também o são. Mas esse é um pensamento simplista e, por isso, errado e vai se solidificando cada vez que alguém diz não querer se meter com política, aí faz como Pilatos lava as mãos deixando que outro decida por ele. O pior é que muitas das vezes não percebemos e somos enganados pelas mídias, aparentemente se mostram neutras, só que não existe, politicamente falando, ninguém neutro todos defendem interesses próprios.
Acredito que tudo isso pode mudar, que ainda tem conserto. Somos um país ainda novo, em relação aos países da Europa, por exemplo, estamos em construção e cada tijolo colocado é importante, temos nossos ideais e esperanças no futuro, vivemos com vontade de acertar. A partir do momento que cada um tome posição, deixando de pensar em si próprio, verá que sua participação é fundamental para as mudanças sociais em direção ao reino de Deus, perceberá que de nada adianta a fé sem ação concreta e que é necessário a disseminação da cultura da construção no coletivo. Talvez estejamos falando de uma situação utópica. Mas segundo o escritor Eduardo Galeano[8] (2006) A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Então, é isso que nos move, sendo assim, não podemos deixar jamais que nos roubem a utopia e os sonhos que sonhamos juntos.



Rio de Janeiro, 26 de Janeiro de 2016.











[1] A palavra umbanda é derivada de “u´mbana”, um termo que significa “curandeiro” na língua banta falada em Angola, o quimbundo. A umbanda tem origem nas reuniões das senzalas lá os negros escravos vindos da África dançavam e cantavam louvando seus deuses e incorporavam espíritos. A umbanda é uma religião brasileira formada por elementos de outras religiões como o catolicismo, o espiritismo e juntando ainda elementos da cultura africana e indígena.

[2] A palavra agnóstico deriva do termo grego “agnostos” que significa “desconhecido", "não cognoscível”. O agnóstico é aquele que considera os fenômenos sobrenaturais inacessíveis à compreensão humana. Os agnósticos consideram inútil discutir temas metafísicos, pois são realidades não atingíveis através do conhecimento. Para os agnósticos, a razão humana não possui capacidade de fundamentar racionalmente a existência de Deus. Um agnóstico pode ser teísta ou ateísta. O teísta admite que não tem conhecimento que comprove a existência de Deus, mas acredita ou pelo menos admite a possibilidade da existência de Deus. Por outro lado, o ateísta também admite não possuir conhecimento que comprove a não existência de Deus, mas não acredita na possibilidade que Deus exista.

[3] Etimologicamente, a palavra "sincretismo" tem origem no grego sygkretismós, que significa "reunião das ilhas de Creta contra um adversário em comum", traduzido para o francês syncrètisme, deu origem à variante na língua portuguesa, que significa a fusão de diferentes doutrinas para a formação de uma nova, seja de caráter filosófico, cultural ou religioso. No caso do sincretismo religioso é a mistura de uma ou mais crenças religiosas em uma única doutrina. No Brasil o sincretismo religioso nasce a partir dos colonizadores portugueses, dos escravos africanos e da população indígena.

[4] A Teologia da Libertação é um movimento teológico cristão que nasceu na América Latina, depois do Concílio Vaticano II e da Conferência de Medellín na Colômbia em 1968. É um movimento que não se vincula a nenhum partido político, mas pensa em uma teologia que possa influenciar a política, de acordo com os ensinamentos e o projeto de Jesus Cristo de libertação das opressões econômicas, políticas ou sociais. A Teologia da Libertação tem caracteristicas básicas como a negação da esperança transcendente, o reino de Deus é para a imanência deste mundo e  considera o pobre, não um objeto de caridade, mas sujeito de sua própria libertação. A Teologia da Libertação foi e continua sendo a reinterpretação analítica e antropológica da fé cristã, em vista dos problemas sociais existente em particular na America Latina.

[5] A palavra fé significa "confiar", "acreditar" em algo ou alguém, ainda que não haja evidências que comprove veracidade. De acordo com a etimologia, a palavra fé tem origem no Grego "pistia" que indica a noção de acreditar e no Latim "fides", que remete para uma atitude de fidelidade.  Para nós cristãos ter implica crer na Bíblia e nos ensinamentos de Jesus Cristo, o enviado de Deus.

[6] Segundo o Dicionário da Língua Portuguesa Larousse, Ideologia é um conjunto de ideias, crenças, doutrinas próprias de uma sociedade ou classe social. Sendo assim, a ideologia pode estar ligada a ações políticas, econômicas e sociais. O termo ideologia foi muito usado pelo filósofo Antoine Destutt de Tracy e o conceito de ideologia foi bastante trabalhado pelo filósofo alemão Karl Marx. De acordo com Marx, a ideologia da classe dominante tinha como objetivo manter os mais ricos no controle da sociedade.

[7] Democracia representativa ou democracia indireta é uma forma de governo em que o povo elege seus representantes para defender e executar os seus interesses. A principal base da democracia representativa é o voto direto no candidato considerado mais apto para exercer o cargo pleiteado. O Brasil é governado sob o regime de democracia representativa, com voto obrigatório. Somos uma república democrática, elegemos nossos representantes para Presidente da República, governadores, senadores, deputados, vereadores, prefeitos. 

[8] http://www.espacoacademico.com.br/056/56andrioli.htm




[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta. Membro do CEBI-RJ/Sub-regional Campo Grande. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Os Evangelhos – Curso Popular de Bíblia: Partilha, serviço e amor. - Fernando Henriques - CEBI Méier


CEBI MÉIER
Comunidade Renato Cadore

Os Evangelhos – Curso Popular de Bíblia:Partilha, serviço e amor.

Fernando Henriques

coordenador

 

“A Palavra se fez carne e armou sua tenda entre nós (João 1,14a).

  
    O Segundo Testamento é iluminado pelo Primeiro Testamento. Entendemos melhor a pessoa de Jesus à luz da experiência do Povo de Israel. Jesus realiza as esperanças contidas no Primeiro Testamento. Quem é Jesus? Como era a terra de Jesus? E seu tempo?
   Alguns fatos da época de Jesus
•        55 anos antes de Jesus nascer, os romanos invadiram a Palestina, entraram em Jerusalém e saquearam o Templo.
•        30 anos antes de Jesus nascer, Herodes, o Grande (ou Herodes Magno) tornou-se rei da Palestina e foi sempre subserviente aos romanos. Instalou-se em Jerusalém, construiu uma grande fortaleza e, para agradar aos judeus, começou a reconstruir o Templo.
•        Herodes mandou colocar a ÁGUIA, símbolo do Império Romano, em cima da porta do Templo, provocando a revolta do povo judeu.
•        O imperador Augusto ordenou aos judeus juramento de fidelidade ao Imperador. Seis mil fariseus se recusaram a fazê-lo e, por isso, foram perseguidos, presos e crucificados (fato ocorrido mais ou menos à época do nascimento de Jesus).
•        Quando Jesus tinha 10 anos, Herodes morreu. Em Jerusalém houve uma revolta. Varo, governador romano, perseguiu os rebeldes e crucificou cerca de dois mil deles.
•        Quando Jesus tinha 25 anos, Herodes Antipas, filho de Herodes Magno, rei da Galileia, mandou construir uma cidade sobre um cemitério judeu à margem do Lago da Galileia. Esta cidade tornou-se sua capital sob o nome de Tiberíades, em homenagem ao imperador Tibério. Isso gerou grande descontentamento no meio do povo judeu. Ao que consta, Jesus jamais entrou nessa cidade.
•        Quando Jesus tinha mais ou menos 30 anos, os romanos nomearam Pôncio Pilatos governador da Judeia e da Samaria.
    Jesus certamente tinha conhecimento destes fatos e certamente refletiu sobre eles. Deve ter comentado com seus vizinhos e amigos em Nazaré a respeito.
    A terra de Israel era dividida em três regiões principais:
•        Judeia – É a região ao sul. Jerusalém era sua capital administrativa e religiosa. Predominavam as áreas montanhosas. A terra era seca e árida, própria para o cultivo de olivais, figueiras, árvores frutíferas e raízes aromáticas para produção de perfumes e para criação de ovelhas e cabras. Nas cidades havia uma sociedade estratificada: nobreza, artesãos, escravos e estrangeiros. Em Jerusalém concentrava-se a elite sacerdotal, os latifundiários e os comerciantes.
•        Galileia – É a região mais ao norte. Seu solo é fértil. Havia latifúndios, onde se cultivava trigo, centeio e cevada. Havia também criação de gado bovino. No lago da Galileia, praticava-se a pesca e, em suas margens, havia indústrias de conservação de peixe. A principal organização era nas aldeias, onde a maioria do povo vivia da agricultura. A população da Galileia, por ser uma mistura de várias etnias, pela proximidade dos povos vizinhos e pelos contatos comerciais, era considerada impura pelos judeus, especialmente os da Judeia. Passavam por esta região duas grandes rotas comerciais. Uma passava próximo de Nazaré e ligava Gaza à Itureia e à Síria. A outra ligava Jerusalém e a Samaria à Fenícia, atual Líbano. As capitais da Galileia foram Séforis e Tiberíades.
•        Samaria – Esta região ficava entre a Judeia e a Galileia. Era rica, sobretudo em vinhedos. Havia uma grande produção de vinho. A origem de sua população era uma mistura de etnias. Por isso os judeus mais ortodoxos desprezavam o povo samaritano, considerando-o impuro e herético. Suas capitais foram Siquém, Tersa e Samaria.
•        Fora do espaço de Israel havia a Filisteia, a Idumeia, a Nabateia, a Pereia, a Decápole, a Triconítide, a Itureia, a Síria e a Fenícia.
    Como era a situação econômica na época de Jesus? O que era produzido: cereais, azeitonas, azeite, frutas, vinho, melado, gado bovino, ovelhas e cabras, porcos, pesca, artesanato, tecidos e perfumes.
    Quem produzia: lavradores de variadas categorias (pequenos proprietários, meeiros, assalariados, diaristas, trabalhadores sazonais e escravos), além de operários, artesãos, pescadores e pastores.
    Como era produzido:
•        Nas cidades residiam os grandes proprietários de terra, os senhores do comércio e os produtores de artesanato.
•        Nas aldeias havia pequenos proprietários, os diversos tipos de agricultores e artesãos (carpinteiros, pedreiros, marceneiros, canteiros, etc.).
•        Jerusalém era considerada a cidade santa, pois nela estava o Templo de Salomão. Ali vivia-se dos gastos e das doações dos peregrinos que a visitavam nas épocas de festa. Havia uma grande renda do comércio religioso, trocas de moedas, dízimos e sacrifícios.
•        O Templo funcionava como Banco Central, bolsa de valores e agência central de arrecadação de impostos. Era lá que ficavam os livros dos notários onde estavam anotadas as dívidas.
     Para quem era produzido: para Roma (Corte Imperial, exército e povo da capital). Também para Herodes e sua corte. Para as grandes famílias sacerdotais e da nobreza. O povo vivia taxado de impostos. Roma exigia da Palestina 6 milhões de denários ao ano. Um denário era a diária de um trabalhador.
     Os tributos eram cobrados assim:
•        Tributo: 25% da colheita;
•        Publicum: taxa sobre a circulação de mercadorias;
•        Anona: dinheiro e gêneros alimentícios para o sustento das tropas;
•        Impostos não oficiais: cobrados à revelia da lei pelos altos funcionários.
            Impostos por ser judeu:
•        Dízimo: 10% sobre a colheita devia ser entregue no Templo em produto ou o equivalente em dinheiro;
•        Dízimo pelos necessitados;
•        Imposto para manutenção do Templo;
•        Ofertas para sacrifícios de purificação ou por motivo das festas;
•        Estima-se que o pequeno proprietário pagava de impostos entre 65 e 75% de sua renda a cada ano.
      Neste contexto sócio-econômico viviam diversos grupos, tais como saduceus, filisteus, batistas, zelotas, essênios e o povo em geral.
     Surge na Galileia o profeta Jesus de Nazaré. A proposta apresentada por Jesus é o projeto de Deus para o homem. Esse projeto apresenta uma nova prática econômica (prática das mãos), uma nova prática política (prática dos pés), uma nova prática social (prática dos olhos) e uma nova prática religiosa (prática do coração).
     Acompanhando Jesus em sua missão, percebemos sua metodologia e a sua coerência. Percebemos sua fidelidade até a morte, e morte de cruz. E o próprio Jesus nos deixou, em forma de oração, a síntese de sua mística, o Pai Nosso (cf Mt 6,9-13).
    As comunidades primitivas atuam na partilha, no serviço e no Amor.

Livro-texto: “Os Evangelhos: partilha, serviço e amor”, de Tea Frigerio (CEBI-PA), coleção Curso Popular de Bíblia, vol. 5, 6ª edição, Editora CEBI, São Leopoldo, 2006.
   
     A Comunidade Renato Cadore, o CEBI Méier, vive o especial carisma da caminhada ecumênica. Seus membros têm em comum o gosto pelo estudo bíblico, a leitura popular da Bíblia, a leitura orante, o gesto concreto e, principalmente a compreensão da Bíblia e da Vida como revelações do Deus que nos ama sem quaisquer condições.
    Venha participar de nossas atividades e refletir conosco. Nossos encontros são aos sábados, das 9 às 12 horas, na Casa Pe Dehon (Rua Vilela Tavares, 154, Méier, 3º andar, bloco fundos).

CEBI Méier


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Benção de Natal

Benção de Natal

Que o amor de Deus,
     Salvador de todos os povos,
     se faça de novo presente como uma criança
     em cada homem e em cada mulher
.
Que o nosso mundo
     seja transformado em Seu Reino
     pela ação do Seu Espírito de amor.

E que nossa vida seja plena de alegria
     porque, hoje, um menino nos foi dado!
     "O mundo tornou a começar".

               Amém.
               
                         Amém.

                                    Amém.

                                                                                Luiz Carlos Ramos

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Direitos Humanos: um desafio a ser conquistado. João Crispim Victorio Cebi Campo Grande - Rio (RJ)

Direitos Humanos: um desafio a ser conquistado.

João Crispim Victorio[i]

            Sabemos que a tendência natural da humanidade é evoluir e essa evolução se dá de acordo com os conhecimentos científicos, tecnológicos e sociológicos acumulados, por isso, temos a impressão que lá nos primórdios se vivia o atraso. Agora, quando o assunto é a convivência em sociedade e em família, aí parece que as coisas evoluem lentamente. Nesse sentido, as questões relacionadas a gênero, a etnia, a religiosidade, a política e, por fim, ao poder econômico são, sem sombra de dúvidas, questões que necessitam da educação como base para melhor compreensão e discernimento na construção de um mundo melhor. Mundo, esse, que pode ser compreendido e comparado ao Reino de Deus. Para tanto, é preciso abolir o poder econômico, creio ser ele o causador de todos os problemas sociais produzindo o pior de todos os conflitos, a guerra. Assim, ter compreensão do processo histórico que possibilitou a construção da Declaração Universal dos Direitos Humanos na busca da vida vivida em harmonia, é fundamental. Pois só conhecendo o documento é que daremos a ele o devido valor e importância, já que o mesmo nasce da necessidade de permitir que todos, homens, mulheres, crianças e idosos tenham vivam em plenitude.
            Para definirmos Direitos Humanos[1] podemos começar dizendo que o título é formado por dois substantivos: Humanos, homem e mulher; Direitos, coisas permitidas em lei. Então, Direitos Humanos são os direitos que a pessoa tem porque é humano. Esses direitos estão baseados no princípio do respeito em relação ao ser humano que antes de qualquer coisa é um ser moral e racional, por isso, merece ser tratado com dignidade. São chamados de direitos humanos porque são universais e sem dúvidas são bastante amplos e significativos no sentido da liberdade do trabalho, da escolha da pessoa para formar a família, de viajar livremente e de ter lazer. Ou seja, toda pessoa têm direitos, não importa o gênero, a etnia, a orientação sexual, a religião ou o país que vive. Mas nem sempre foi assim. Nos tempos passados, não havia garantias dos direitos individuais da pessoa humana.
Os direitos humanos surgiram da ideia de que todas as pessoas deveriam ter, garantidos em lei, alguns princípios básicos, necessários a uma vida digna em sociedade. Encontramos essa ideia em todo o processo de desenvolvimento e evolução da humanidade enquanto ser social, tanto nos livros bíblicos do Antigo e do Novo Testamento, quanto em alguns pensadores nas áreas de História, Sociologia e Antropologia. Um primeiro exemplo é a narrativa sobre a criação que encontramos no livro de Gênesis (Gn 1, 25-29)  onde a criatura, cen­tro do ato criador, torna-se parceiro do próprio criador no cuidado com toda a sua criação. Um segundo exemplo é a tentação do poder absoluto nas narrativas do fruto proibido (Gn 2, 15-17), pois comer daquele fruto permitiria ter o mesmo poder de Deus. Por isso o ser humano se percebeu nu e frágil, consciente de sua limitação. Já o relato da Torre de Babel (Gn 11), por meio da confusão das línguas diferentes, mostra a impossibilidade dos seres humanos serem submetidos a um poder absoluto, ou seja, haverá sempre a luta pelo poder.
No Pentateuco, percebemos o caráter social da ética dos hebreus nos critério estabelecidos para o convívio humano pautado pelo reconhecimento dos direitos como as Leis de Deus (Ex 20, 1-17) que norteia toda a ação e convívio humano, como por exemplo, o uso e a distribuição da terra e dos alimentos, pois a maior preocupação é com os pobres, os órfãos, as viúvas, os leprosos, os estrangeiros, com todos que correm o risco da exclusão. Mas é com os profetas do Antigo Testamento que encontramos muitas ações em defesa da dignidade, da liberdade e do direito à vida humana em plenitude. Os profetas representavam a oposição consciente aos atos do poder dos que reinavam sobre o povo em Israel. Eles foram chamados e enviados por Deus para denunciar toda opressão e falácia do poder dos Reis, que deveria estar a serviço do povo, e anunciar o Reinado de Deus.
O Novo Testamento, além dos Evangelhos, traz também narrativas referentes às primeiras comunidades cristãs, descrevendo as atividades dos discípulos após a morte e a ressurreição de Jesus, evidenciando a forma de organização social das mesmas. Poderíamos aqui exemplificar com várias passagens do próprio Jesus, mas para o propósito do nosso texto citarei o Apóstolo Paulo (Rm 13, 1-7), mediando um confronto entre a comunidade e a autoridade política local. Esse tipo de problema, sabemos muito bem, ocorre ainda hoje em nossas comunidades. No entanto, Paulo escreve a comunidade no intuito de mostrar como deve ser exercido o poder político e o seu limite, objetivando estrategicamente, com isso, evitar a negação radical da autoridade política. Fazer essa leitura de maneira desatenta nos leva a pensar que Paulo está sugerindo que toda autoridade é boa e deve ser obedecida, porém, o que Paulo está dizendo é que não devemos hostilizar e nem desprezar a autoridade inadvertidamente, isso, para nós hoje é defender do Estado de Direito. Podemos concluir, então, que no limite do contexto histórico, social e político, Paulo defende os valores de cidadania e de direitos da pessoa humana.
Como podemos verificar, em toda a Bíblia encontramos textos que relatam a preocupação com a dignidade da vida humana[2]. Outro fato histórico importante na consolidação dos direitos humanos ocorreu em 539 a.C. O primeiro rei da antiga Pérsia, Ciro, o grande, libertou os escravos da Babilônia e, posteriormente, declarou, registrando em um cilindro de barro, que todas as pessoas tinham o direito de escolher sua religião. Este é o registro mais antigo, hoje reconhecido como a primeira carta dos direitos humanos. Além desse registro, outros documentos históricos foram surgindo na intenção de garantir os direitos individuais da pessoa, como a Carta Magna, outorgada pelo Rei João da Inglaterra, no ano de 1215, a elaboração da Petição de Direitos, apresentada ao Rei Carlos I em 1628, a Constituição dos Estados Unidos (1787), a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), e a Declaração dos Direitos dos Estados Unidos (1791). Todos considerados por muitos como documentos precursores da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Dentre os registros históricos[3] acima podemos observar que durante esta fase foram ocorrendo mudanças de ordem política e econômica, no mundo conhecido, sugerindo modificações radicais no comportamento social das pessoas. A partir daí o tempo vai se tornando cada vez mais curto entre um documento e outro. Durante o movimento denominado Renascimento, século XV e XVI, precursor da ciência moderna, surge instrumentos que vão facilitar as navegações marítimas, dando início ao período de expansão da Europa, por meio das colonizações nas Américas e na África, época que fere de morte os direitos humanos, devido, principalmente, a execução dos nativos e a escravidão dos negros africanos. Mas é no século XVIII que se concentra o maior número de documentos históricos relacionados aos direitos da pessoa. Isso ocorre em consequência das grandes mudanças no cenário político, econômico e social que estão acontecendo em toda a Europa e Estados Unidos. Entre as mudanças podemos citar a Revolução Científica, a Revolução Industrial, de cunho econômico, iniciada na Inglaterra, a Revolução Francesa[4], de cunho social e ideológico. Revoluções, estas, que causam uma nova orientação na organização da sociedade e do trabalho.
Nesse sentido, uma nova geografia territorial e política é configurada. Um novo modo de organização social surge mexendo com a vida das pessoas provocando grandes transformações nos hábitos, nos costumes e nos valores morais e éticos. Estas transformações promovem no início do século XX, três novos fatos que vão mexer com todo o mundo: a Primeira Grande Guerra Mundial (1914-1918), a Revolução Russa (1917) e a Segunda Grande Guerra Mundial (1939-1945). Neste contexto, em abril de 1945, delegados de cinquenta nações se reuniram em São Francisco formaram a Organização das Nações Unidas – ONU, para proteger as pessoas e promover a paz. Os ideais da ONU foram declarados no prefácio da carta de proposta: “Nós os povos das Nações Unidas estamos determinados a salvar as gerações futuras do flagelo da guerra, que por duas vezes na nossa vida trouxe incalculável sofrimento à Humanidade”. A carta entrou em vigor no dia 24 de outubro de 1945, ainda no calor e no cheiro da pólvora propagada na Segunda Guerra Mundial.
Dia 24 de outubro de 1945, a partir desta data se comemora todos os anos o Dia das Nações Unidas. Três anos depois, em 1948, a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, inspirada na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão, elaborou um documento, que finalmente viria ser aprovado pelas Nações Unidas no dia 10 de dezembro do mesmo ano, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O documento, composto por trinta artigos, tem hoje parte dessas leis constitucionais delineando os direitos fundamentais que formam a base para uma sociedade justa e democrática. Entre os trinta artigos do documento estão questões relacionadas com a garantia dos direitos civis, políticos, sociais e ambientais, como a liberdade individual, a educação, a saúde, a propriedade, a cultura, entre outros.
Como vimos a Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela ONU, guia o texto base de inúmeras Constituições pelo mundo, inclusive a nossa de 1988. Mas assim como alguns países, o Brasil, ainda, não conseguiu consolidar alguns artigos da Lei universal no que se refere à:
... liberdade e a dignidade, conforme o artigo primeiro... no que se refere à igualdade perante a lei, conforme artigo sétimo...  no que se refere à propriedade, conforme artigo décimo sétimo...  no que se refere à liberdade de pensamento, de consciência e de religião, conforme artigo décimo oitavo...  no que se refere à liberdade de opinião e de expressão, conforme o artigo décimo nono... no que se refere ao direito a trabalho, à filiação sindical e à proteção contra o desemprego, conforme artigo vigésimo terceiro... no que se refere ao direito a repouso, a lazer e a férias periódicas pagas, conforme artigo vigésimo quarto... no que se refere à educação, educação de qualidade gratuita e obrigatória, pelo menos no ensino básico, e acesso ao estudo superior aberto a todos em plena igualdade, conforme o artigo vigésimo sexto... (UNIC / Rio / 005 - Agosto 2009).

Os artigos destacados são os básicos do básico no desafio da construção de uma sociedade justa e fraterna, porém, ainda não conseguimos implantá-los de maneira efetiva na nossa sociedade brasileira. Há muito ainda por fazer, principalmente, no que se refere a: construção de um sistema de educação inclusivo e de qualidade; promoção da justiça social com  empregos e salários dignos; reforma agrária com investimentos financeiros e infraestrutura que garanta a fixação do homem na terra e políticas públicas destinadas aos mais pobres para torná-los pessoas dignas. Aos poucos estamos conquistando alguns desses desafios, no entanto, sabemos que não é fácil, basta olharmos para os últimos 15 anos, a mudança na direção dos investimentos públicos do governo federal, por exemplo, vem causando verdadeiro ódio aos mais ricos, acostumados somente a ganhar e nunca a repartir. Por isso, os mesmos vêm se organizando e investindo muito dinheiro para derrubar o governo e acabar com a festa dos mais pobres e marginalizados. Sendo assim, é preciso conhecer para fazer valer e defender a nossa Constituição, conforme proclama a Declaração Universal dos Direitos Humanos, no seu prefácio: “... tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades...”. Ou seja, a saída é pela educação.

Rio de Janeiro, 04 de dezembro de 2015.





[1] Definição conforme Dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.

[2] Os textos bíblicos citados são da Bíblia do peregrino da editora Paulus.

[3] http://www.humanrights.com/pt/what-are-human-rights/brief-history/cyrus-cylinder.html

[4] A França, em 1789, aboliu a monarquia absoluta estabelecendo a primeira República Francesa  e nesse momento proclama a Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão. Declaração que garante a todos os cidadãos os direitos de liberdade, propriedade, segurança, e resistência à opressão.





[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Advento: celebrar o mistério de Deus que vem ao encontro da humanidade.

Advento: celebrar o mistério de Deus que vem ao encontro da humanidade.

             
                                          

        Visita

Abro portas e janelas
e preparo tua visita
sei que vens sem avisar...

Organizo um movimento
já num ritmo mais lento
com o intuito de esperar...

Os ruídos tão intensos
e essa louca correria
não nos deixam te escutar.

Com os fios do desejo
teço a rede dos meus sonhos
pra poder me embalar...

Durmo um pouco mais seguro:
os vazios do futuro
tua visita preencherá.

                                                                Ernesto Barros  Cardoso

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Belém: o lugar do nascimento de Jesus. Valdeci de Oliveira Biro - CEBI Volta Redonda

Belém: o lugar do nascimento de Jesus.
A Belém bíblica, geograficamente situa-se na região de Judá. Era um pequeno povoado no Primeiro Testamento. No livro do Genesis (35,19; 48,7) era conhecida como Efratá, nome do local de atuação do profeta Miquéias (Mq 5,2). Belém/ Efratá é o cenário de atuação de Rute, bisavó do rei Davi, terra natal do rei Davi (1°Sm 16). No período do reinado de Davi, Belém/ Efratá, esteve sob domínio dos Filisteus, conhecidos como povos do Mar (2° Sm 23,14), Roboão fortaleceu Belém/ Efratá depois da separação das tribos do norte (2° Cr 11,5-6).
A ciência arqueológica tem se concentrado em Belém, a partir da Igreja da Natividade como tradição histórica. Justino Mártir século II identificou uma caverna perto de uma aldeia como lugar do nascimento do menino Jesus e foi construída uma Igreja sobre a gruta. A população cristã de Belém reduziu consideravelmente após perseguições sob domínios Mulçumanos e Turcos. Hoje, a Igreja da Natividade em Belém de Efratá permanece no centro conflitos de políticas religiosas entre Palestinos e Israelitas.

Valdeci de Oliveira Biro
Pós-Graduado em Assessoria Bíblica Centro de Estudos Bíblicos
 Escola Superior de Teologia Bíblica Luterana de São Leopoldo-RS
Membro ABIB: Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica

domingo, 13 de dezembro de 2015

2º Domingo de Dezembro: Dia da Bíblia - Gleides - CEBI Nova Iguaçu

Domingo de Dezembro: Dia da Bíblia

      As igrejas protestantes e/ou evangélicas comemoram no 2º domingo de dezembro o Dia da Bíblia.
      A data corresponde ao 2º domingo do Advento, celebrado nos quatro domingos que antecedem o Natal.
      Criada em 1549 na Grã -Bretanha pelo bispo Cranmer que incluiu a data no livro de orações do rei Eduardo VI. O objetivo era interceder a favor de sua leitura.
      No Brasil esse dia começou a ser celebrado em 1850, quando chegaram da Europa e EUA os primeiros missionários protestantes.
      Porém, o mais importante são as histórias reais que esse livro inspira.

País de Gales - Reino Unido, final do século XVIII
     
      No vilarejo de Alan morava uma menina chamada Mary Jones que, como os demais membros de sua família, não sabia ler.
      Aos domingos participava do culto na igreja do vilarejo e ficava encantada com a leitura da Bíblia feita pelo pastor.
       Aos 10 anos ingressou na escola que chegou na vila e foi alfabetizada.
      O desejo de ter sua própria Bíblia levou a pequena Mary a trabalhar duro durante seis anos até reunir dinheiro suficiente para adquiri-La.
      E assim, aos 16 anos, partiu a pé para o vilarejo de Bala, distante 40 km, atravessando vales e ribeirões para realizar seu sonho.
      Ali, em casa do rev Thomas Charles, adquiriu a única Bíblia em galês que restava e que já tinha comprador mas, ao contar sua história, sensibilizou o religioso que lhe vendeu o precioso livro.
      De volta à sua vila Mary Jones pela primeira vez abriu e leu a Bíblia em sua casa. Foi lido o Salmo150.
      Inspirados na determinação dessa menina, em 7 de dezembro de 1804, líderes de várias igrejas criaram a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, em Londres, como objetivo de traduzir, imprimir e distribuir a Bíblia.
      Hoje são 140 Sociedades Bíblicas espalhadas pelo mundo, incluindo a Sociedade Bíblica do Brasil, criada em 1948.

Tinguá - Nova Iguaçu, outubro de 2014

      A festinha coordenada pela “tia” Paula em comemoração ao Dia das Crianças havia terminado.
      A garotada era só alegria com seus saquinhos de guloseimas e os brinquedos recebidos.
      Tia Paula, com tanto movimento, esqueceu que iria sortear um exemplar da Bíblia.  
           Foi quando ela avistou Juliana, uma menina de aproximadamente 12 anos que, pela primeira vez, participava dos eventos realizados no sítio. Ela aguardava a mãe que viria buscá-la.
      “Você já tem Bíblia, Juliana? Perguntou. Diante da resposta negativa ofereceu-lhe o exemplar que seria sorteado.
      A alegria que tomou o rosto da menina impressionou a todos.
      “Mãe, advinha o que eu ganhei? Uma Bíblia, mãe!”
      Sua mãe, então, relatou como a filha desejava ter uma Bíblia e de como insistentemente pedia que lhe fosse comprada.
      Ao contrário de Mary Jones, Juliana vive em uma época  em que as bíblias já não são tão caras e estão editadas em vários idiomas, inclusive os minoritários.
      O que essas meninas tem em comum e nos toca é o desejo de possuí-la e o carinho que dedicam a esse livro tão antigo.      
      Não apenas ouvir sua leitura mas poder lê-lo com os próprios olhos e coração.
      Ter a possibilidade de ler suas histórias, conhecer Jesus e aprender a gostar de Deus.
      Que o Deus da Vida, da Bíblia e das crianças abençoe Juliana e todas as meninas e meninos que irão ao Seu encontro através de sua leitura.
      Amém.

                                                                          Gleides - Nova Iguaçu