terça-feira, 24 de novembro de 2015

África e Bahia - João Crispim Victorio Cebi Campo Grande - RIO (RJ)

África e Bahia

África, terra de tantos encantos
Canto para te saudar
Terra do povo negro
Salve os teus orixás...

Bahia, braço de continuidade
Que vontade de ficar
Terra de todos os santos
Canto para teus orixás...

Oxalá, que na força deste povo
Um grito novo possa ecoar
Laços de amizade e magia
África, Bahia e seus orixás...

África, terra de tantos encantos...

Bahia, terra de todos os santos...

Oxalá, canta o povo de todas as etnias...

África e Bahia
Cantam para seus orixás...


Poema de João Crispim Victorio
Extraído do livro: Poetas de Manguinhos (1997).

22 de novembro de 2015.

sábado, 7 de novembro de 2015

Ciência e Tecnologia, a serviço de quem? João Crispim Victorio - CEBI Campo Grande - Rio (RJ)

Ciência e Tecnologia, a serviço de quem?

João Crispim Victorio[i]

            Antes de qualquer coisa é preciso compreender o conceito e a evolução da Ciência e da Tecnologia dentro de um contexto histórico, social e ideológico, próprio da evolução humana. Dessa maneira iremos perceber que Ciência e Tecnologia caminham juntas, mas nem sempre dependente uma da outra; que quanto mais avançado em Ciência e Tecnologia for um determinado país, mais poder exercerá sobre os outros e, por fim, para a Ciência e a Tecnologia acontecerem são necessários investimentos, por um lado, intelectual, capacidade de criação do ser humano e, por outro, financeiro, pois no modelo político-ideológico que vivemos, sem o dinheiro, não há crescimento científico e tecnológico.
A palavra ciência deriva do latim "scientia" que significa conhecimento ou saber. Atualmente se designa por ciência todo o conhecimento que abarca teorias e leis gerais obtidas e testadas por meio do método científico. A Ciência, na verdade, comporta um conjunto de saberes com teorias elaboradas nas suas próprias metodologias. Dentre esse conjunto de saberes temos as Ciências da Natureza que descrevem, ordenam e comparam os fenômenos naturais determinando as relações existentes entre eles, formulando leis e regras. Podemos distingui-las como Ciências Exatas: física e química e Ciências Descritivas: biologia, geologia, medicina, entre outras.
Já a palavra tecnologia tem sua origem no grego “τεχνη” e “λογια” que significam ofício e estudo respectivamente, ou seja, o termo envolve conhecimento técnico e científico. Então, tecnologias são métodos elaborados para melhorar o funcionamento dos mecanismos de produção visando tornar mais rentáveis os investimentos e isso compreende desde as ferramentas mais simples até as mais complexas. Sendo assim, podemos definir tecnologia como sendo a aplicação do conhecimento científico por meio do estudo sistemático das técnicas para fabricar e fazer coisas conseguindo um melhor resultado prático. Portanto, isso demonstra que a Tecnologia está intimamente ligada a Ciência e ambas se completam para dinamizar a vida no mundo[1].
A religião, refiro-me aqui ao cristianismo, durante todo o processo de evolução humana, além das Ciências e das Tecnologias, torna-se um fator que merece destaque devido sua influência e interferência na vida e na história humana. A Bíblia, por exemplo, não é um livro científico, mas fala de ciência e está de acordo com fatos científicos bem diferentes das crenças de alguns povos que viviam na época em que algumas de suas histórias saíram da oralidade e ganharam a forma da escrita. Comparando com a periodização clássica da historiografia as histórias biblicas acontecem dentro do período que chamamos de História Antiga, em dois momentos. O primeiro, Antigo Testamento, de 1900 a.C. até o ano 1 da era cristã e o segundo, Novo Testamento, tem seu início a partir do nascimento, da trajetória, da morte de Jesus Cristo e seus discípulos, ou seja, até os anos 70 d.C.
Vejamos alguns exemplo dos relatos bíblicos[2] que demonstram, de forma interessante, essa ligação entre Ciência e Religião. Vamos iniciar esta tarefa com a questão do Universo:  segundo o livro de Gênesis o Universo tem uma criação (Gn1, 1). No entanto, para alguns povos antigos o Universo não foi criado e sim nascido de deuses e os seres humanos eram vítimas das ações imprevisíveis desses deuses,  sabemos, pois, que  o Universo é governado por leis naturais e não por caprichos dos deuses, conforme relatos no livro de Jó (Jó 38, 33) e de  Jeremias (Jr 33, 25); A Terra é suspensa no espaço vazio, conforme, Jó (Jó 26, 7). Porém, alguns povos antigos acreditavam que a Terra era achatada e se apoiava em um búfalo ou em uma tartaruga; ainda de acordo com Jó (Jó 36, 27-28) e, também, Eclesiastes (Ecl 1, 7) , entre alguns outros livros biblicos, a água evapora e cai em forma de chuva, alimentando os rios e os mares. Os povos antigos acreditavam e até o século 18, ainda se acreditava que eram as águas dos oceanos subterrâneos que alimentavam os rios; algumas práticas de higiene são relatadas em Levítico (Lev 11, 28 e 13, 1-5) e Deuteronômio (Deu 23, 13), regulamentando ao povo de Israel procedimentos corretos depois de tocar num cadáver, isolar pessoas com doenças infecciosas e eliminar fezes humanas de forma segura. Nessa  época os egípcios tratavam as feridas com excremento humano.
Com esses poucos exemplos citados já é possível verificar que a evolução da humanidade sempre esteve diretamente ligada ao tripé: Religião , Ciência e Tecnologia. Hoje sabemos que ao longo dessa evolução muitos cientistas, alguns deles divididos entre Ciência e Religião, tiveram importante participação, mesmo durante a tenebrosa inquisição. Pois, suas descobertas possibilitaram o progresso da vida humana em sociedade e muitas das transformações sociais se deram devido ao avanço científico que desde os primórdios da nossa história, principalmente, a partir da descoberta, do uso e da reprodução do fogo, assim como o uso de um simples galho de árvore para ampliar o braço humano e derrubar uma fruta, vem ocorrendo. Ou seja, podemos dizer que nos distintos períodos da história que antecederam a Revolução Científica[3], na Europa do início no século 17, vimos uma ciência voltada para os conhecimentos que poderiam explicar o Universo e seus fenômenos naturais e já nos períodos pós Revolução Científica veremos a consolidação do que se convencionou chamar Ciência Moderna. O embrião da Revolução foi a Renascença italiana, que apesar da posição contrária da Igreja Católica foi em frente e no início do século 18, toma forma o método científico, que passaria ser aplicado na busca de explicação dos fenômenos da natureza. Aqui dois personagens se destacaram Francis Bacon e René Descartes.
Nesse sentido, podemos concluir que a evolução da Ciência e da Tecnologia, ao longo da história da humanidade, transita por três fases distintas, até tornarem-se indissociáveis e, por que não dizer, centro da incansável busca pelo progresso humano. Tomaremos por base, para essas divisões em fases, a Revolução Industrial ou, segundo alguns historiadores, Revolução Tecnológica, que teve início na Inglaterra de 1740, século 18. Revolução esta que acontece devido aos avanços científicos e tecnológicos da época, pois, possibilitaram a introdução das máquinas no processo produtivo. A introdução da mecanização na produção, até então artesanal, dá origem as fábricas e por consequência inicia-se um modelo de organização do trabalho, agora de forma intensiva. Dessa forma podemos concluir que a primeira fase da evolução da Ciência e da Tecnologia ocorre no período que antecede a Revolução Industrial. A segunda fase acontece no período que vai da Revolução Industrial até a Segunda Guerra Mundial, século 20, e a terceira fase do avanço da Ciência e da Tecnologia, inicia-se com a Segunda Grande Guerra, também no século 20, até os nossos dias atuais.
Como podemos verificar, hoje, a introdução das máquinas nos setores produtivos ao longo dos anos, não só aumentou a velocidade do trabalho como também reduziu e até mesmo substituiu o homem no seu posto de trabalho. Sendo assim, a máquina e sua evolução através dos tempos passa ser o centro no processo econômico e produtivo. Nesse contexto, com a ampliação do crédito foi possível dinamizar e fortalecer o sistema capitalista em ascensão e o capital, sem sombra de dúvidas, sempre ficou nas mãos de uns poucos, numa roda viva que tem sustentação primeiro, no pilar econômico e segundo, no pilar político.
Mas, nos dias de hoje, num mundo dividido entre uma minoria de detentores do capital e uma maioria de desprovidos desse mesmo capital, é preciso fazer a seguinte reflexão: a Ciência e a Tecnologia estão a serviço de todos? A resposta a esse questionamento é, simplesmente, não. Agora, depois de respondida a questão, temos de tomar algumas atitudes, já que, o conhecimento científico, conforme observado, ao longo da história, não era privilégio de alguns grupos em detrimento de outros, mas ocorrera de maneira a favorecer melhores condições de vida a todos, assim, como os relatos do livro de Levítico[4]. Para tanto, é necessário que mudemos o nosso pensamento e comportamento no sentido de garantir, lá na frente, a longo prazo, uma nova humanidade. Proponho que essa mudança comece já, pois não é possível que fiquemos no famoso “jeitinho”, é preciso muito mais. É preciso construir um novo modo de viver e para alcançar esse objetivo o primeiro passo seria desenvolver entre nós a cultura do não consumismo, consequentemente, nos livrando das amarras da ideologia capitalista que só valoriza o ter em detrimento do ser.




Rio de Janeiro, 7 de novembro de 2015.


[1] De acordo com a UNESCO, "a ciência é o conjunto de conhecimentos organizados sobre os mecanismos de causalidade dos fatos observáveis, obtidos através do estudo objetivo dos fenômenos empíricos"; enquanto "a tecnologia é o conjunto de conhecimentos científicos ou empíricos diretamente aplicáveis à produção ou melhoria de bens ou serviços" (Reis, Dálcio Roberto, “Ciência e Tecnologia” in www.xadrezeduca.com.br/site/h4/).

[2] Os textos bíblicos citados são da Bíblia do peregrino da editora Paulus.

[3] A revolução científica moderna tem início com a obra de Nicolau Copérnico, Sobre a revolução dos orbes celestes (1543). Copérnico defende matematicamente um modelo de cosmo heliocêntrico, rompendo com o sistema geocêntrico formulado no século II por Cláudio Ptolomeu. Os filósofos René Descartes e Francis Bacon dedicaram suas obras as novas teorias científicas e ao modelo de ciência baseado no método científico da observação, da experimentação e verificação de hipóteses como critérios decisivos, destituindo de vez o argumento metafísico.

[4] O livro de Levítico é um tratado de higiene e saúde. Nessa época o povo vivia a Idade do Bronze (1500 a.C.). Estavam saindo do Egito, viajando a pé e acampando pelo caminho, com rebanhos e crianças imigrando para o Oriente Médio. As orientações visavam acomodar as necessidades e resguardar o povo de uma epidemia ou doença generalizada pelo acampamento. As medidas anunciadas são profiláticas visando primariamente a prevenção e a erradicação de microorganismos.




[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Óbvio e lógico, problemas para gestão escolar. João Crispim Victorio - CEBI Campo Grande (RJ)

Óbvio e lógico, problemas para gestão escolar.

João Crispim Victorio[i]

Tenho escutado, muitas vezes, o uso do termo “óbvio” ou “lógico” durante as conversas com meus pares, seja em situações informais na sala dos professores ou nas formais, nos Conselhos de Classes e Centros de Estudos. Mas qual o significado destas duas palavras? Refiro-me a relação que estas palavras, tão usadas de forma banal em nosso meio, têm com a ideologia neoliberal, carregada de preconceitos, discriminação e marginalização da pessoa humana.
Para tal missão recorri ao meu velho e bom amigo “Aurélio”, dele pude extrair que a palavra óbvio é um adjetivo que significa “o que salta à vista”, ou seja, o que é “claro”, e que a palavra lógico também é um adjetivo e significa “conforme à lógica”, “que raciocina com justeza” ou seja, o que é “coerente”, “natural” ou “inevitável”. Examinando ao “pé da letra”, parece ser muito simples o entendimento de ambos os significados, pessoas menos esclarecidas podem, até pensar: não vejo nada demais. Mas, em se tratando de educadores, pessoas que passaram em média quatro anos de suas vidas se preparando para o magistério, não dá para aceitar este pensamento tão simplista assim.
Devemos lembrar que a profissão docente exige, no mínimo, compreensão da organização social e política da nossa sociedade, da organização estrutural do nosso sistema de educação, além, do entendimento que, a educação não é um campo neutro ou apolítico, conforme muita gente acredita ser, ao contrário, educar é um ato político e, segundo Paulo Freire[1] (1997), “... pode implicar tanto o esforço da reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmascaramento”. Portanto, neste caso é interessante que fiquemos na ignorância, acreditando na impossibilidade de inverter sua lógica perversa de exclusão. Citando ainda, Paulo Freire, "como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha". Isso significa dizer que não é possível formar um indivíduo, trazê-lo à luz, para ser capaz de interferir na sociedade politicamente, como reza os documentos oficiais da educação brasileira, se o próprio educador ainda não entendeu o processo e só consegue enxergar sombras deformadas pela pouca luz que entra na sua caverna.
Um bom exemplo, para ilustrar o que estou falando, é quando, muitas das vezes, com olhar preconceituoso, julgamos nosso aluno pela aparência física, pela cor da pele, pelas roupas que veste ou pelo lugar onde mora. Nesse julgamento dizemos logo: “é óbvio que esse aluno não vai chegar a lugar algum. Não vai aprender nada”, “vai ser um analfabeto funcional”. Ora, estamos aqui seguindo a lógica do pensamento dominante e com que facilidade nos eximimos de nossa parcela de responsabilidade, enquanto educadores e membros ativos, que deveríamos ser, dessa sociedade cada vez mais injusta.  Para Paulo Freire (1997), “do ponto de vista dos interesses dominantes, não há dúvida de que a educação deve ser uma prática imobilizadora e ocultadora de verdades”. Sendo assim, não podemos aceitar como óbvio esse sistema de exclusão social, que nos é imposto por meio de uma escolarização pública deformada[2], orientada por organismos internacionais de ideologia neoliberal que quer manter o poder político nas mãos das elites intelectuais e financeira do nosso país. Precisamos reagir a essa situação, isso se faz urgente, para tanto é necessário entendermos a importância da nossa participação política nesse processo de mudança. Porém, para que as mudanças ocorram é necessário que façamos algumas pequenas modificações em nossa prática cotidiana, enquanto educadores, na sala de aula e enquanto gestores da unidade escolar. Pois sabemos que as grandes transformações, como por exemplo, a ruptura com o modelo atual de educação só ocorrerá quando nossa sociedade acordar e sair da ilusão do berço esplêndido.
Muitas das vezes agimos de forma equivocada e até mesmo ingênua, favorecendo o modelo perverso de exclusão, quando aderimos ao que é tido como óbvio na organização escolar. A formação das classes, por exemplo, achamos que se deva respeitar, principalmente, o critério da faixa etária do educando, o que nos parece lógico e, isso, vai se repetindo ao longo de sua permanência na escola. Ou seja, numa escola que forma seis turmas de quinto ano, a maioria dos educandos que compõem a 1501, seguirá assim até a 1901, as raras exceções são daqueles que por motivo de retenção ou evasão quebram essa sequência. Neste sentido, as primeiras turmas formadas, que compreende da 1501, provavelmente até a 1504, são consideradas, as com os “melhores” alunos. O óbvio, aqui, na verdade é que essa lógica gera consequências ruins, como a formação dos “guetos” por alunos rotulados bons, regulares e ruins. Além de parecer que é óbvio, os professores mais antigos, considerados dentro da lógica do justo, os mais preparados e experientes no domínio de turmas e de conteúdos, receberem como “prêmio” sempre as primeiras turmas, enquanto que os mais novos e inexperientes ficam com as outras. O resultado, muitas das vezes, é a exoneração precoce dos professores novos ou, pior, baixas na psiquiatria.
Estas atitudes seguidas, sem questionamentos, por professores e gestores, como óbvias, não me parece lógica em relação à coerência profissional. Sendo assim, não devemos montar turmas formadas apenas por alunos repetentes do ano anterior e por aqueles que, por algum motivo, se encontram defasados com relação ao ano de escolaridade e a idade. Este simples movimento extirparia do nosso meio um dos problemas mais grave que atrapalha, diretamente, a gestão escolar. Ao acabar com os “guetos” de alunos rotulados, que só favorecem a evasão escolar, estaremos melhorando as relações de convivência entre professores e alunos, professores e professores, alunos e alunos, numa situação de respeito e harmonia, até por que se queremos ser respeitados pelos alunos, devemos respeitá-los, também. De forma indireta, haverá melhoraria nas ocorrências dos mais variados tipos de violência que acontecem na escola e fora dela, o que facilitaria o desenvolvimento pedagógico do processo ensino-aprendizagem.
Precisamos pensar seriamente nisso. Somos formadores e o futuro dos jovens, queiramos ou não, depende de nós, das nossas atitudes e dos nossos exemplos enquanto cidadãos com direitos e deveres, enquanto seres humanos com necessidades de receber e dar carinho e enquanto professores cientes da nossa missão. Se nos sentimos desrespeitados pelo nosso sistema educacional, não é desrespeitando nossos alunos que vamos resolver o problema. Não é com atitudes corporativistas que vamos melhorar nossas condições de trabalho e de salário. As atitudes que tomamos, muitas das vezes, com base no óbvio e no lógico, podem ser uma armadilha, um tiro no próprio pé, pois, não podemos esquecer que as palavras não têm somente seus valores semânticos, mas também ideológicos no sistema vigente.

Rio de Janeiro, 10 de agosto de 2015.



[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

[2] Deformada no sentido de querer manter um sistema de educação dual. Para os pobres basta saber ler, escrever e fazer as operações básicas da matemática e para os ricos um ensino que prepare para a graduação e a pós-graduação.



[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta.

sábado, 20 de junho de 2015

Debate - Poema de João Crispim Victorio - Cebi Campo Grande

Debate


Deus está vivo
Proclama o cristão
Deus está morto
Proclama o filósofo
Deus não existe
Insiste o ateu

Onde está Deus?
Pergunta o jovem doutor
Deus está entre nós
Responde o velho agricultor

Poema de João Crispim Victorio - Cebi Campo Grande
Extraído do livro: Sobre o Trabalho que Falo...

11 de junho de 2015.

domingo, 31 de maio de 2015

Sustentabilidade: Desafios de Convivência entre Humanos e Natureza. João Crispim Victorio / CEBI-RJ Sub-regional Campo Grande

Sustentabilidade: Desafios de Convivência entre Humanos e Natureza[1].

João Crispim Victorio[i] / CEBI-RJ Sub-regional Campo Grande

Podemos definir a Bíblia como sendo a Palavra de Deus dirigida à humanidade, mas não apenas como mandamentos ou meio de santificação. Pois, por meio de suas páginas, tanto nos livros do Antigo, quanto nos do Novo Testamento, podemos ter o imenso prazer de conhecer ensinamentos sobre preservação ambiental. Ou seja, a Bíblia pode nos ensinar tudo o que precisamos saber para ter e manter uma vida saudável no planeta. Nesse sentido, sustentabilidade[2] tem seu significado ligado à “espiritualidade” e, por esse motivo, a questão ambiental deve estar no cerne da vida humana.
O aparecimento do ser humano na Terra pode ser dado pela teoria criacionista, Deus criador do universo, conforme narram os livros bíblicos e pela teoria da evolução, defendida pela ciência, o homem como resultado de um lento processo de mudanças. Tomamos por base aqui a teoria criacionista com sua fantástica história que revela Deus, em sua ação criadora, como o agricultor, o jardineiro que cria e cuida do seu jardim e que, logo depois, cria o homem e a mulher, os cria da própria terra, sinalizando que são uma coisa só. Estão unidos para que a vida seja um processo de sustentabilidade.
Deus nos criou a sua imagem e semelhança e deu a nós autoridade para cuidar da sua criação. Com isso, mostrou a necessidade de preservar o meio ambiente e toda espécie de vida. Deus quer que sejamos sustentáveis em nossas ações, para tanto, devemos adquirir hábitos ecologicamente corretos. Esse é o grande desafio a ser enfrentado por cada pessoa na construção de uma sociedade justa e fraterna. Mas, Infelizmente, estamos longe de cumprir com nosso compromisso, pois, nossa prática cotidiana caminha em direção contrária, conforme denuncia nossa própria história.
Apesar de possuirmos uma relação muito íntima com a terra, já que é por meio dela que adquirimos nosso sustento, vemos na história cicatrizes profundas deixadas pelas lutas por terra. Lutas, essas, que estão presentes desde os primórdios, conforme podemos conferir no relato de (Gn 4, 1-16), onde Caim mata seu irmão Abel. Este fato nos mostra, de maneira figurada, o rompimento entre o campo e a cidade[3]. Abel era um pastor de ovelhas que Deus se agradou da oferta e Caim era um lavrador do qual Deus não se agradou da oferta. Caim, por seu ato, recebe o castigo. Sai e vai habitar a terra de Node e lá conhece sua mulher que da à luz a Enoque. Nesse clima surge a primeira cidade bíblica.
Ao longo da história da humanidade a relação do homem com a terra foi de lutas e de conquistas que causaram marcas profundas, sofrimentos, angústias e problemas ambientais graves. No Brasil, por exemplo, a luta pela terra tem início com a chegada dos portugueses que, arbitrariamente, tomaram posse das terras ocupadas pela população originária e fizeram isso com extrema violência. Até os dias atuais os problemas relacionados à terra não foram solucionados, ainda, temos os grandes latifúndios  improdutivos de um lado e do outro trabalhadores sem terra querendo produzir e viver da terra. Porém, nem tudo está perdido, o contrário também existiu e existe ainda, hoje. Vemos algumas iniciativas que provam a possibilidade de uma convivência harmoniosa e inteligente do humano com o planeta. E, portanto, partindo do princípio de que a terra e toda criação, em sua diversidade, é obra de Deus, o domínio da mesma não é poder exclusivo de alguns poucos, mas de todos. Já que, não somos os donos dos bens da natureza e a terra é a morada comum da humanidade.
A criação da Terra e da Humanidade, narradas de forma poética no livro do Gênesis, tem seu início quando  Deus diz: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra” (Gn 1, 26-27). A relação dialética entre o ser humano e natureza pressupõe uma existência e a sua sobrevivência, estabelecendo ao longo da história relações de transformações do meio ambiente. Mas não de transformações destrutivas ao meio ambiente, a relação ser humano e natureza se estabelece através do trabalho, um trabalho que domina e transforma para atender as necessidades individuais e coletivas (ARENDT, 1981)[4]. Mas o que vemos é a exigência de meio mais elaborado e tecnologicamente mais avançado de desenvolvimento resultando em devastação e destruição dos espaços.
A maneira de organização da sociedade capitalista moderna caracteriza um sistema de explorados e exploradores da força de trabalho. A racionalização associada ao processo industrial capitalista aniquila qualquer iniciativa de modo de organização social digna para todos. O bem estar, o meio ambiente, os valores sociais e éticos são rejeitados em nome do lucro máximo para a manutenção do capitalismo. Neste sentido, alerta Boff (2011)[5]:


Os trabalhadores são considerados como "recursos humanos" ou pior ainda "material humano" em função de uma meta de produção. Como se depreende, a visão é instrumental e mecanicista: pessoas, animais, plantas, minerais, enfim, todos os seres perdem sua autonomia relativa e seu valor intrínseco. São reduzidos a meros meios para um fim fixado subjetivamente pelo ser humano que se considera o centro e o rei do universo, Este quer enriquecer e acumular bens para si.

Em uma de suas crises o modelo capitalista buscou saída na globalização, ou seja, na homogeneização da economia mundial, segundo seu modelo de desenvolvimento que orienta a formação de sociedades que valorizem normas de eficiência para sustentação econômica e tecnológica. As desigualdades geradas pelo sistema capitalista e seus efeitos neoliberais geram problemas de exclusão social e de acesso a terra as famílias pobres. Assim sendo, temos o desafio de falar em desenvolvimento humano sustentável num mundo globalizado sob a égide do capitalismo. De construir alternativas que tornem possível uma sociedade capaz de satisfazer as necessidades atuais sem comprometer as gerações futuras, garantindo a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente a todos.
A terra vem dando claros sinais de enfraquecimento e de morte nos últimos tempos. O papel dos profetas foi e sempre será de nos advertir quanto saber interpretar os sinais de Deus através dos fenômenos da natureza. Deus, como criador, preocupou-se da humanidade entender o processo de manutenção da vida na terra. Por isso, Francisco de Assis, Chico Mendes, entre tantos outros, cada um há seu tempo, mostraram que a exploração sustentável do planeta é de responsabilidade de todos para que as futuras gerações tenham vida e vida em plenitude junto a Mãe Terra.

[1] O tema apresentado é em homenagem ao Dia Mundial do Meio Ambiente foi instituído no dia 5 de junho de 1972, durante a Conferência das Nações Unidas (ONU), sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo. A data escolhida tem como objetivo principal chamar a atenção de todas as esferas da população para os problemas ambientais e para a importância da preservação dos recursos naturais, que até então eram considerados, por muitos, inesgotáveis.

[2] O conceito de sustentabilidade que vamos usar neste trabalho é o empregado por Leonardo Boff: “Toda ação destinada a manter as condições energéticas, informacionais, físico-químicas que sustentam todos os seres, especialmente a Terra viva, a comunidade de vida e a vida humana, visando a sua continuidade e ainda a atender as necessidades da geração presente e das futuras de tal forma que o capital natural seja mantido e enriquecido em sua capacidade de regeneração, reprodução, e coevolução”. Faz-se necessário aqui salientar o conceito devido ao conflito entre as várias compreensões do que seja sustentabilidade. Por exemplo, na clássica definição da ONU, do relatório Brundland, (1987) sustentabilidade “é o que atende as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem a suas necessidades e aspirações”. Já o conceito mais comum e também jurídico está relacionado com a mentalidade, atitude ou estratégia ecologicamente correta, na diversidade cultural, viável a nível econômico e socialmente justa.

[3] Uma introdução à Bíblia. Formação do povo de Israel. Volume 2. 2ª ed. Ildo Bohn Gass (Org) RS: CEBI/Paulus 2011.

[4] ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro Forense, São Paulo, EDUSP, 1981.

[5] BOFF, Leonardo. Sustentabilidade e cuidado: um caminho a seguir. Junho de 2011. Disponível em: < http://leonardoboff.wordpress.com > Acesso em 21 de abril de 2014.


[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

O Rosto Materno de Deus. Deus no feminino, o feminino em Deus. Fernando Henriques - CEBI Méier


CEBI MÉIER
Comunidade Renato Cadore

O Rosto Materno de Deus.Deus no feminino, o feminino em Deus.



Fernando Henriques
coordenador - CEBI Méier

“Ninguém jamais viu a Deus: o Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o deu a conhecer”. (João 1, 18).


    O Feminino; caminho do ser humano para Deus.

    Paulo nos diz que o invisível de Deus se faz visível mediante a consideração das obras da criação (cf Rm 1, 19-20). O feminino é uma suprema obra de Deus, porque somente dele e do masculino se diz que são imagem e semelhança de Deus (cf Gn 1,17). Em sua totalidade o feminino se exprime no horizontal da história e no vertical como abertura ao Absoluto que chamamos de Deus. Ninguém se basta a si mesmo ou vive para si mesmo. Assim o homem se abre à mulher, e esta se abre ao varão. Juntos formam uma unidade dual. Entretanto esta unidade não se sacia a si mesma, buscando sempre uma plenitude maior. A mulher e o varão somente se personalizam radicalmente se juntos mergulharem no mistério que é maior que seu amor mútuo. Se juntos se abrirem para o vertical de um absoluto e, assim, poderem nomeá-lo como Deus-Pai e de acolhê-lo na sua existência.
    Desta maneira o ser humano é sempre varão e mulher, feminino e masculino constituem o componente ontológico de cada ser humano.
    Questão de antropologia: o que é finalmente o homem em sua expressão masculina e feminina? No limite, o masculino sempre remete ao feminino e este ao masculino. Para a fé cristã, Deus é Trindade, Pai-Filho-Espírito Santo. Não será o ser humano enquanto homem e mulher, imagem radical da Trindade? Na Trindade temos a ver com relações absolutas constituindo as pessoas. Há a anterioridade absoluta das relações que então estabeleceram as três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. O problema fundamental da Trindade é o face a face das Pessoas divinas. No ser humano emerge a mesma dialética: o face a face da mulher e do varão. O homem só é varão face a face à mulher e esta só o é face a face àquele. Esta reciprocidade é o dado último e primeiro tanto no ser humano como no ser divino. O Filho e o Espírito Santo remetem a um Princípio sem princípio, a um Mistério absoluto, o Pai. Não representa o Filho o princípio masculino e o Espírito Santo o feminino? Talçvez devamos nos recordar que em hebraico, o Santo Espírito é expresso no feminino: Rûah, Hokbah, Shekinah.
    O Espírito está sempre associado ao mistério da vida, da graça, da geração, como no caso de Maria de Nazaré, que sob a potência do Espírito concebeu Jesus de Nazaré.

O feminino, caminho de Deus para o ser humano.


    Recordemos esta oração para as diaconisas constante das Constituições Apostólicas de fins do século IV: “Ó Deus, que encheste com vosso espírito a Maria, Ana, Débora e Helda, atirai vosso olhar sobre vossa serva. Dai-lhe vosso Espírito Santo”.
    Se admitirmos que o ser humano enquanto masculino e feminino é verdadeiramente semelhante a Deus, então somos induzidos, pela lógica da própria afirmação, a admitir que Deus mesmo é prototípicamente masculino e feminino. Podemos falar de um feminino em Deus? É lícito invocar a Deus como Mãe, assim como aprendemos do Senhor a invoca-lo como Pai? Convém notar que a Teologia somente agora faz essas interrogações por causa das práticas libertadoras das mulheres de nosso tempo e pela consciência cultural da igualdade e dignidade do princípio feminino.
    Essa mesma teologia nos diz que Deus habita numa luz inacessível e que por isso está para além dos sexos. Deus é uma existência supraessencial e uma divindade superdivina. Quando dizemos que Deus é puro Espírito, queremos, no fundo, expressar a ultrapassagem de Deus a toda determinação, particularmente a esta de ordem sexual. Por isso quando professamos que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, não o fazemos no sentido de ressaltar a determinação sexual. O judaísmo histórico retrata Deus como masculino mas se afasta das demais religiões por não lhe conferir um atributo sexual, na verdade sem o expressar em uma imagem.
    As atribuições masculinas do judaísmo são meras atribuições culturais. Hoje é chegado o tempo em que a outra face de Deus, feminina, materna, encontrou condições históricas de se revelar. Ao descobrirmos o feminino em Deus e ao invoca-lo como Mãe, não estaríamos vinculados a dados sexuais, mas a qualidades femininas e maternas que se realizam absolutamente em Deus.

Deus-Mãe: alguns testemunhos históricos.


     A cultura matriarcal está cheia de divindades femininas, especialmente maternas. A cultura hebraica é basicamente masculina. Entretanto, o Espírito Santo é feminino. O próprio Jesus num ágrafo do Evangelho apócrifo aos hebreus refere-se ao Espírito Santo em feminino: “Naquele momento, minha Mãe, o Espírito Santo, me agarrou pelos cabelos e me conduziu até o cimo da grande montanha do Tabor”.
   Nos Evangelhos, as referências de Jesus ao Espírito possuem acentos maternais (cf Jo 14,18; Jo 14,26; Rm 8,15; Rm 8,26).
    A história das religiões nos informa que a divindade vem sempre representada pela cultura sob o simbolismo paterno e materno. São os dois tipos religiosos fundamentais: o crônico e o urânico.  O crônico ou telúrico, é orientado para a terra, a vida, a geração, os mistérios da morte. É a religião maternal. Voltado mais para a origem, para o paraíso terrestre e a reconciliação primigênia. O urânico ou celestial, é orientado para o céu, a infinitude, a transcendência. É a religião paternal. Voltada para o termo da história, procura a salvação e o Reino de Deus que eclodirá no futuro. Um acentua a geração e outro o nascimento; um a concepção e outro a parturição.
   O Cristianismo e o judaísmo são religiões eminentemente urânicas, masculinas: o Reino vem e é prometido para amanhã. Apesar da predominância masculina encontra-se na Escritura traços da religião telúrica e materna. Deus também é vivenciado em sua forma maternal (cf Is 66,13; Os 11,4; Is 49,15; Jo 1,18). Deus é a mãe que consola. Deus é a mãe que ergue a criança até junto de seu rosto. Deus é a mãe incapaz de se esquecer do filho de suas entranhas. Deus possui um seio aconchegante.
   O próprio Jesus usa uma linguagem familiar do feminino: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas aqueles que te são enviados. Quantas vezes eu quis juntar os teus filhos como a galinha e não o quiseste” (cf Lc13,34). Deus finalmente, na parusia, se mostrará no gesto típico da mãe, enxugando as lágrimas de nossos olhos fatigados de sofrer e de chorar (cf Ap 21,4).
   Na primeira parte do Livro de Jó, Deus se apresenta como um Pai duro que prova, castiga, pune o seu justo. Na segunda parte Deus como que se compadece, volta-se simpaticamente para ele e se revela sob a forma feminina da Sabedoria. Sob esta forma feminina o homem encontra uma nova face de Deus (cf Jó 38-42).
   Podemos recordar algumas reflexões:
   “Deus só é pai quando promete um amor de mãe” (André Manaranche; jesuíta e teólogo francês).
   “Deus é amor, e é por causa do amor que nós o buscamos. Em sua inefável majestade ele é nosso Pai, mas em seu amor ele se abriu a nós e tornou-se nossa mãe. Sim, em seu amor ele se tornou uma mulher e o Filho que irrompeu dele é a maior prova disso” (Clemente de Alexandria – 150-215 d.C., refletindo sobre a maternidade divina de Maria).

   “Desde que Deus seja a fonte preeminente de todas as perfeições na ordem criada, Ele deve ser também a fonte da maternidade, a suprema perfeição feminina (E. Doyle, Deus e o Feminino).
   Santo Efrém, o Sírio (306-373 d.C.), referia-se ao Espírito Santo como a “Mãe em Deus, o eterno feminino em Deus”.
    “E tu, Jesus, bom Senhor, não és também mãe? Ou não será mãe aquele que como a galinha reúne seus pintainhos debaixo das asas? Deveras, Senhor, tu és minha mãe” (Santo Anselmo de Cantuária).
   “Deus, em sua onisciência, é a nossa meiga Mãe, com o amor e a bondade do Santo Espírito que formam um só Deus e um só Senhor” (Juliana de Norwich, século XIV, mística católica inglesa, in Revelações do Amor Divino”). Para Juliana a Trindade possui três propriedades: a paternidade, a maternidade e o senhorio. A maternidade é atribuída à Segunda Pessoa, que é nossa Mãe em natureza e graça.
   São Nicolau de Flue, franciscano, considerado o padroeiro da Suiça, que viveu no século XV, narra uma visão na qual a Trindade lhe aparece na forma de Deus-Pai, Deus-Mãe e Deus-Filho.
   “Talvez a definição (do dogma da assunção) quer conduzir a Igreja a uma consideração mais profunda e a última formulação do abissal mistério da maternidade de Deus. Pois pela assunção Maria retorna à sua própria fonte. Não ela, mas Deus mesmo é o último protótipo da maternidade e da feminilidade, mesmo materialmente. (...) Como Cristo, ascendendo aos céus conduz-nos ao caminho de Deus, nosso Pai eterno, talvez Maria, assunta aos céus, queira nos conduzir a um conhecimento e amor mais profundos de Deus, nossa eterna Mãe” (Victor White, OP, in “O Escândalo da Assunção”).
   Carl Gustav Jung, num contexto psicanalítico sobre os vários dogmas marianos, formula a hipótese da divinização do feminino em Maria. Deus é a mãe eterna e o feminino absoluto historizado de forma plena na vida de Maria.
   M.A. Farley, teóloga da Universidade de Yale, nos diz que “talvez as duas nomenclaturas, Pai e Mãe, nos forneçam a força das imagens que nos traduzam mais perfeitamente o mistério de Deus”. E ela acrescenta que o feminino “se torna uma categoria apta para compreendermos também o Filho e o Espírito Santo”.
   “Deus é Pai e, mais ainda, é Mãe” (papa João Paulo I).
    A literatura sapiencial bíblica ajuda nossa reflexão (cf Pr 8, 22-23): o Senhor criou a Sabedoria como primogênita de sua obra. Também os salmos podem nos ajudar (cf Salmo 110,3): Desde o seio materno, desde a aurora da infância – aplicado pela teologia ao Verbo eterno.
   Lembremos que Deus Pai gerou o Filho. Portanto seria mais natural chamar Deus de mãe eterna que de Pai eterno.
  

Deus, princípio último de toda feminilidade: Deus minha Mãe.


     Há um princípio teológico básico que diz que diz que toda perfeição pura reflete Deus, tem sua última raiz em Deus e pode ser atribuída a Deus. Masculino e Feminino são perfeições de primeira ordem a ponto de o masculino ter servido como a principal linguagem da revelação histórica de Deus, no Primeiro e no Segundo Testamento. O feminino possui igual dignidade que o masculino e, por isso, constitui-se também em veículo comunicador de Deus. Tanto o masculino como o feminino são imagens de Deus (cf Gn 1,27). O que quer que seja precisamente masculino e feminino, encontra em Deus seu protótipo e sua fonte.
    O Deus-feminino serve de arquétipo supremo para a mulher como Deus-masculino serve para o varão. O que encontramos na história possui sua derradeira origem no próprio mistério de Deus. Assim como do Pai eterno nos vem toda a paternidade do céu e da terra, assim também toda maternidade no céu e na terra vem da Mãe eterna. O feminino histórico serve por um lado de itinerário para o feminino de Deus, por outro, significa a presença criada à semelhança deste feminino de Deus. Portanto o feminino possui uma dimensão eterna. Esta afirmação é absolutamente correta em Jesus Cristo, varão assumido hipostáticamente pela Segunda Pessoa da Trindade. Jesus é masculino e feminino: viveu plenamente o masculino (pois era varão) como integrou perfeitamente a dimensão feminina. Tudo em Jesus, também o feminino, foi assumido hipostáticamente pelo Verbo eterno. Em Jesus o feminino pertence a Deus e é divinizado. Segundo as regras cristológicas da perocórese, este feminino de Jesus é Deus. (Obs: União hipostática em teologia: que forma uma só pessoa; união hipostática do Verbo com a natureza humana.
   Apolinário de Laodiceia foi o primeiro a usar o termo “hipostática” na tentativa de compreender a encarnação. Apolinário descreveu a união do divino e humano em Jesus Cristo como sendo de uma única natureza e tendo uma única essência ou substância - uma união hipostática. Entretanto, Apolinário propunha que Cristo tinha um corpo humano porém uma mente divina, esse conceito também chamado de apolinarianismo foi rejeitado e considerado heresia no primeiro Concílio de Constantinopla.
   Teodoro de Antioquia (ou de Mopsuéstia) foi em outra direção, argumentando que em Jesus Cristo havia duas naturezas (humana e divina) e duas substâncias (hipóstase), no sentido de "essência" ou "pessoa", que co-existiam ao mesmo tempo.
   O Concílio de Calcedónia, em 451, concordou com Teodoro a respeito da encarnação, entretanto o Concílio insistiu que a definição não seria da natureza e que deveria ser na pessoa, o que concordava com o conceito trinitariano de Deus. Assim, o Concílio declarou que em Cristo há duas naturezas, cada uma mantendo as suas próprias propriedades, e juntas unidas numa substância e, em uma única pessoa.
    Aqueles que rejeitam o Credo da Calcedônia são também conhecidos como monofisistas porque só aceitam uma definição que caracteriza Jesus Cristo encarnado como tendo uma única natureza. Os demais são diofisistas (duas naturezas) porque aceitam a união hipostática de Cristo.
    Como a compreensão humana não consegue explicar de que forma é realizada essa união das substâncias, a união hipostática de Cristo é também conhecida como "união mística".
    A união hipostática foi o motivo da separação da igreja síria e alexandrina (copta) também conhecidas como Igrejas não-calcedonianas das Igrejas Ortodoxas.
    Para Leonardo Boff, o Deus cristão, o Deus da vida, sempre é a Trindade de Pessoas: a comunhão do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O conceito pericórese é colocado em intrínseca significação com os conceitos bíblicos de comunhão, amor e vida, pois a interpenetração dinâmica entre as Pessoas da Trindade é o resultado do amor e da vida que constituem a essência da Trindade. A Trindade seria modelo e inspiração para a organização da sociedade e para as lutas por justiça e pela vida humana.
    Portanto pericórese é uma expressão grega que literalmente significa uma Pessoa conter as outras duas (em sentido estático) ou então cada uma das Pessoas interpenetrar as outras reciprocamente (sentido ativo). O adjetivo pericorético quer designar o caráter de comunhão que vigora entre as divinas Pessoas da Trindade.

    Jesus revelou a Deus como Pai e ele próprio se deu a conhecer como Filho na força do Espírito Santo. O que se quer dizer com isto? Pai exprime a realidade divina enquanto é princípio sem origem de tudo, a fonte da qual tudo sai e para a qual tudo é reconduzido. Filho é esta mesma realidade divina enquanto é autocomunicada como verdade de si mesma, como expressão infinita de si mesma para fora de si mesma. Espírito Santo é esta mesma realidade divina enquanto ao comunicar-se a si mesma produz a aceitação amorosa de sua comunicação naquele que a recebe. A Santíssima Trindade é, portanto, momentos da única autocomunicação de Deus, do Mistério insondável que sai de sua obscuridade, manifesta-se como luz (conhecimento) e se autodoa como dom (amor) sem perder seu caráter de Mistério incompreensível e indisponível. Ao pensarmos em um Deus Uno e Trino podemos expressá-lo em uma terminologia feminina: Mãe, Filha e Espírito Santo, desde que consideremos e professemos também a terminologia de Pai, Filho e Espírito Santo. Portanto o Deus uno e trino, misterioso e conhecido como misterioso no conhecimento, próximo e distante, fascinante e tremendo, pode ser experimentado e invocado como meu Pai e minha Mãe, nosso Pai e nossa Mãe.

Qual o sentido último do feminino?


    Primeira resposta: o feminino, na ordem da criação, encontra o seu sentido em revelar o feminino de Deus. O feminino possui uma dimensão e função sacramental: fala de Deus, evoca Deus e aponta para Deus.
   O varão Jesus foi pensado e querido por Deus para poder ser o grande receptáculo da autocomunicação pessoal de Deus dentro da criação. Ele está totalmente em função do desígnio encarnatório do Filho eterno. Pela encarnação o Filho se harmoniza, o que equivale a dizer, assume concretamente a forma masculina e feminina na concretização do varão e o varão se diviniza, o que implica a divinização do masculino e do feminino que o constituem.
   Pela união hipostática, a humanidade de Jesus (masculina e feminina) deve ser considerada como humanidade do próprio Deus. O masculino ganha assim um quadro último e divino. O feminino está implícito porque ele faz parte da realidade humana do varão Jesus Cristo.
   Sabemos que foi a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho, quem se uniu ao varão Jesus de Nazaré. Que Pessoa divina estaria ordenada a assumir diretamente o feminino e diviniza-lo?
   Podemos crer ser o Espírito Santo a Pessoa divina a quem o feminino é apropriado. Não só porque na mentalidade hebraica o Espírito Santo seja feminino, mas porque tudo que é ligado à vida, à criatividade, à geração é atribuído nas fontes da fé ao Santo Espírito.
   O Espírito Santo teria, portanto, a missão histórico-salvífica de divinizar hipostáticamente o feminino, direta e explícitamente, e de forma implícita o masculino. Podemos identificar na história a concretização desta sua missão, como identificamos a missão do Verbo divinizando o masculino? Ou o feminino será, somente, no termo da história, divinizado pelo Espírito Santo? Podemos estimar que somos presenteados com uma antecipação escatológica deste evento de infinita doçura no mistério de Maria Santíssima.

    O CEBI Méier convida você a participar deste terceiro encontro de mariologia. Ajude-nos nesta reflexão trazendo sua Bíblia, sua experiência de vida e algo para partilhar. O texto-base deste encontro é a obra de Leonardo Boff, O Rosto Materno de Deus, editora Vozes, 11ª edição, Petrópolis, 2012.

   O CEBI dispõe de duas salas em uso permanente na Casa Pe Dehon (Rua Vilela Tavares, 154, Méier), espaço cedido pela Paróquia do Sagrado Coração de Jesus. Os encontros são semanais, aos sábados, de 8:30 às 12 horas. Venha fazer esta experiência em nossa companhia.

Programação para maio de 2015:

16/05  – O Rosto Materno de Deus: Reflexão mariológica: o mistério de Maria Santíssima.

23/05  – Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Local: Igreja Batista Farol da Lapa; horário a confirmar.

30/05  – Evangelho de Mateus: Quem é Jesus? – capítulo 16.



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quinta-feira, 7 de maio de 2015

DICA BÍBLICA: COMO COMEÇAR LER A BÍBLIA PELA 1ª VEZ, MAS EM CÍRCULOS BÍBLICOS E OUTROS GRUPOS AFINS? Valdeci de Oliveira Biro

DICA BÍBLICA: COMO COMEÇAR LER A BÍBLIA PELA 1ª VEZ, MAS EM CÍRCULOS BÍBLICOS E OUTROS GRUPOS AFINS?

Em nosso dia a dia, temos nos deparados com muitas pessoas, que afirmam que não conseguem ler a Bíblia por falta de instrução ou de alguém que possa conduzi-las neste caminho de fé.
Ler a Bíblia de qualquer maneira é arriscado/perigoso. A Bíblia deve ser lida de uma forma eficiente! Uma forma é nas CEB’s de tradição Católica Romana, com suas Escolas Bíblicas[1] ou nos Círculos Bíblicos/Grupos de Reflexão/ Grupos de Base/Grupos de Rua[2] e nos Grupos de Fé e Vida ou Grupos de Fé e Política[3]. Na tradição Evangélica com as Escolas Dominicais, com seus grupos de cultos nos lares, bem como os grupos de visitação para doentes, famílias enlutadas, ou seja, em cada comunidade pode existir um grupo de pessoas que lê, estuda e planeja visitas a doentes, a pessoas desanimadas, afastadas, excluídas, deprimidas e sedentas por comunhão[4].  
Percebam, quantos grupos trabalham com Palavra de Deus! É à força da Palavra de Deus no meio do seu Povo.  Esses grupos já estão capacitados na instrução da Palavra de Deus para aquelas (as) pessoas que necessitam de uma explicação bíblica, e que possam ajudá-los a entender o texto bíblico sem confusão ou distorções fundamentalistas.
O que move a fé de uma pessoa que esta começando a estudar a bíblia, é a valorização de suas perguntas. Para nós biblistas, inseridos no meio do povão, não existe pergunta boba por parte daqueles que tem duvidas sobre as passagens bíblicas. Lembrando, o que move o estudo bíblico são as perguntas que povo faz sobre a Palavra de Deus. Geralmente quando pegamos a bíblia para ler pela primeira vez, começamos pelo livro de Gênesis, e é ai que se encontra uma boa dica de leitura inicial da bíblia: Começar a ler a bíblia pelo livro de Gênesis, mas desde que seja em grupos/círculos bíblicos/grupos de reflexão...
Esta forma de se reunir em grupos, cria uma nova modalidade de Igreja. A chamada Igreja doméstica. A Igreja que refletia a Palavra de Deus nas casas. Era dessa forma que os primeiros círculos bíblicos surgiram nos primeiros séculos da Era Cristã, refletindo a Palavra de Deus nas casas.
Gente! Em grupo fica tudo mais fácil, principalmente o entendimento da Palavra de Deus, ok!
Outra sugestão prática é ler o Livro de Atos dos Apóstolos capítulo 8 26-40: Aqui, Filipe é enviado por um anjo do Senhor até uma região, onde encontra um Etíope Ministro[5] da rainha Candece na África, explica uma passagem das escrituras do Profeta Isaías, o qual ele lia e batiza-o Etíope no Novo Testamento. Então fique ai à dica bíblica de hoje.
 Valdeci de Oliveira Biro
Pós-Graduado em Assessoria Bíblica Centro de Estudos Bíblicos
 Escola Superior de Teologia Bíblica Luterana de São Leopoldo-RS




[1]O método da Leitura Popular da Bíblia: aceitar que o mistério salvífico em Deus se da através de Jesus, o Homem de Nazaré, impulsionado pelo Espírito Santo e tendo como protagonistas os pobres, excluídos e pecadores; crescer na fé e no conhecimento bíblico em conjunto com os irmãos e em comunidades; por em prática os atos e palavras de Jesus.
[2] Compor Círculo Bíblico ou Grupo de Reflexão é muito simples. Convide, por exemplo, os vizinhos de sua rua e reúna pequenos grupos de 8, 10 e até 12 pessoas. O 1º encontro pode acontecer em casa oferecida com antecedência por alguém do grupo. Seria conveniente que os encontros seguintes fossem realizados em casas diferentes da mesma rua, para que todos possam ir se aproximando e se conhecendo melhor. Os grupos podem ser formados por afinidades: grupos de casais, de jovens de adolescentes e de crianças, etc. Era comum entre os cristãos reunir-se da Palavra e da Eucaristia nas casas (Atos 2,42-47). O apóstolo Paulo destaca muitas casas que se tornaram igrejas a serviço da evangelização (Rm 16,5; 1°Cor 16,19; Fl 4,22; Cl 4,15...). Casa é na atividade missionaria de Jesus, lugar especial de aproximação, de acolhimento, de fraternidade, de escuta da Palavra e da partilha do Pão. < http://pt.slideshare.net/leituraorante/crculos-bblicosgrupos-de-reflexo> acessado em 03 de maio de 2015.
[3]  Excelente artigo de Dom Valmor, Arcebispo de Belo Horizonte MG, que valoriza e resgata  trabalha profético dos grupo de Fé e Politica: “Os grupos de fé e política cumprem uma imprescindível tarefa educativa e prestam um serviço qualificado, acima de simples interesse partidário. Exercem a cidadania à luz do Evangelho. Eles são uma efetiva possibilidade de corrigir descompassos notados na sociedade quando se confunde a relação entre fé, religião e política, especialmente no que diz respeito a instituições e eleições. É lamentável quando se fala de bancada confessional. Um parlamento se configura por razões políticas nobres e cidadãs. Jamais por interesses cartoriais de grupos religiosos”.< http://legislativonesp.blogspot.com.br/2013/10/artigo-de-dom-walmor-grupos-de-fe-e.html>acessado em 03 de maio de 2015
[4] Comunidade Viva: manual de educação à distância. Organizador Sidnei Vilmar Noé. São Leopoldo, RS: EST, 2003, p.5.   
[5] “Ora, um Etíope, eunuco e alto funcionário de Candece, rainha da Etiópia, que era superintendente de todo o seu tesouro, viera a Jerusalém para adorar” (At 8,27). Pelo texto podemos entender que eunuco não é um povo, mas este eunuco pertencia à Etiópia, e era alto funcionário real. Conforme o texto a Etiópia estava sendo governada por uma rainha, que era designada pelos outros povos como rainha de Candece. Aqui no caso este Eunuco se tornou (ou impuseram) esta condição para poder trabalhar no Palácio da Rainha. A Etiópia que aparece no texto estava localizada no norte da África além da primeira catarata do Rio Nilo, se pode entender como o Sudão ou Núbia egípcio. Nota complementar: Quem foram os Eunucos dos tempos bíblicos? Em poucas palavras podemos resumir que a palavra eunuco parece se referir a homens castrados (normalmente para servir a realeza feminina em "segurança"). Este expediente era muito usado na antiguidade, pode-se entender este eunuco etíope desta maneira. Jesus no evangelho de Mateus fala de três tipos de eunucos (conforme Mt, 19,12). Comentando a passagem podemos dizer: aqueles que nasceram eunucos, e são eunucos desde o seio materno. Pode se entender eunucos "que pelos homens foram feitos tais" são aqueles que foram castrados. O eunuco etíope, em Atos 8, é batizado pelo Apóstolo Filipe. O eunuco estava lendo Isaías 53, a passagem profética do Messias que descreve o destino sofredor daquele que foi tirado da terra dos viventes. O Eunuco recebeu a mensagem de que aqueles que afirmarem que Jesus é o filho de Deus seriam incluídos em seu Reino. Daí, então a sua pergunta: "O que impede que eu seja batizado?” Mais uma explicação para a palavra eunuco encontramos no convite que Jesus faz a aqueles que querem consagrar-se exclusivamente ao Reino de Deus. O texto do evangelho de Mateus é muito claro não precisa de maiores explicações: “Com efeito, há eunucos que nasceram assim, desde o ventre materno. E há eunucos que foram feitos eunucos pelos homens. E há eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus. Quem tiver capacidade par compreender, compreenda”. (Mt 19,12). < http://www.abiblia.org/ver.php?id=3099#.VUY1yI5Viko >  acessado em 3 de maio de 2015.