domingo, 8 de março de 2015

Dia Internacional das Mulheres - João Crispim Victorio / CEBI- RJ - Campo Grande

Dia Internacional das Mulheres

João Crispim Victorio / CEBI-RJ - Sub-regional Campo Grande

Nos relatos bíblicos, do Antigo e do Novo Testamento, encontramos muitas ações de sabedoria, de resistência e de esperança referentes às mulheres. Sabemos, porém, que nesses textos pesam também os preconceitos e as discriminações contra as mulheres. Isso é um marco negativo presente na vida da humanidade e a mulher em razão disso sofreu grandes perdas. Já que ao longo da história, elas estiveram sempre subjugadas às vontades dos homens devido a nossa formação social, milenar, baseada no sistema patriarcal. Cito apenas alguns exemplos, a partir do início de tudo. Não por acaso, num relato da criação Deus criou Eva (mulher) das costelas de Adão (Homem) (Gn 2:21-23), isso é uma demonstração clara de que Deus criou a mulher para estar lado a lado com o homem.

Seguimos com Sara, mulher de personalidade vigorosa e de vontade própria. Foi hábil, decidida e perseverante na fé. Não desistiu dos seus sonhos. Outra mulher que merece destaque é Débora, dona-de-casa, profetisa e juíza em Israel. Ocupou um cargo político com excelência. Débora traçou estratégias de batalha e conquistou muitas vitórias para Israel (Jz 4:4-10). Foi a libertadora do povo hebreu em tempos de guerra contra os cananeus.

Lembremos-nos da judia Ester. Criada por um parente, a órfã Ester foi a rainha mais importante que Israel teve (Est 2:15-18). Sábia, não se desesperava para tomar decisões. Destemida e ousada de fé admirável, não teve medo de agir. Ester era humilde, em vez de se mostrar a dona da razão, procurava respeitar a opinião dos outros (Est 4:15-17; 7:3-4). Outra figura marcante foi Rute. Pois viveu como estrangeira junto a um povo que possuía hábitos culturais e sociais que não eram os seus. Um povo que estava naquele momento se reencontrando e resgatando suas origens a fim de purificar sua etnia. Rute, portanto, teve que agir com sabedoria, com prudência e humildade junto a sua família e a esse povo. Quando ficou viúva se apegou à sogra pronta para servi-la e acompanhá-la. Rute possuía as virtudes da amizade, da fidelidade, da dedicação e do desprendimento. “Aonde você for, eu também irei. Onde você viver, eu também viverei. Seu povo será meu povo, e seu Deus será o meu Deus”. (Rt 1:16). Esses relatos são apenas alguns exemplos de muitos que podemos encontrar no 1º (Antigo) Testamento.

No 2º (Novo) Testamento, temos muitos relatos com a importante participação das mulheres. Vamos nos ater aqui não nos relatos, mas em duas personagens: Maria, a mãe de Jesus (Mt 1:18-19) e Maria, chamada Madalena (Lc 8:1-3; 11:26; Mc 16:9). Essas duas mulheres, cada uma a sua maneira, representam a luta pelo direito a vida, a certeza de que é preciso estar organizado em comunidade e a necessidade de resistir sempre contra qualquer tipo de opressão e, particularmente no caso das mulheres, resistir também contra as imposições preconceituosas de uma sociedade patriarcal. Maria e Madalena tiveram papéis de extrema relevância na trajetória de vida de Jesus e na promoção de uma sociedade de justiça e de fraternidade, ou seja, na consolidação do Reino de Deus.

Podemos observar, por meio dos fatos históricos, relatados na Bíblia a luta de algumas mulheres pela libertação da submissão impostas a elas. Hoje, apesar de vivermos numa sociedade moderna, as coisas não são tão diferentes. Pois, a primeira experiência de preconceito sofrida pela mulher acontece na família, depois na escola e no trabalho. 

Em razão de tantas situações de preconceitos e de discriminação, as mulheres se uniram para conquistar respeito e direitos na família, no trabalho e, enfim, na vida. Essa história vem ganhar notoriedade no século XIX, mais propriamente em 1857, com a greve das operárias de uma fábrica têxtil na cidade de Nova Iorque. As operárias depois de presas à fábrica que trabalhavam, cerca de 130 mulheres, foram queimadas vivas. Elas reivindicavam melhores condições de trabalho, diminuição da carga horária de 16 para 10 horas diárias e salários dignos.

Em 1903, profissionais liberais norte-americanas criaram a Women's Trade Union League. Esta associação tinha como principal objetivo ajudar todas as trabalhadoras a exigirem melhores condições de trabalho. Cinco anos mais tarde, em 1908, mais de 14 mil mulheres marcharam nas ruas de Nova Iorque reivindicando o mesmo que as operárias no ano de 1857, mais o direito de voto. Caminhavam com o slogan "Pão e Rosas", em que o pão simbolizava a estabilidade econômica e as rosas uma melhor qualidade de vida.

Em 8 de março de 1910, na Dinamarca, aconteceu uma conferência internacional de mulheres, onde além de discutirem assuntos de seus interesses, decidiram oficializar a data da conferência, pelo fato de ter sido um marco na organização das mulheres, como uma homenagem àquelas mulheres que foram assassinadas de forma covarde e brutal pelos donos das fábricas têxtil em 1857. Mas somente no ano de 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela Organização das Nações Unidas.

No Brasil, com a reforma da constituição federal de 1932, as mulheres brasileiras conquistaram alguns direitos trabalhistas, além do direito ao voto e a cargos políticos no executivo e no legislativo. Dessa época até os dias de hoje, houve alguns avanços na luta das mulheres por reconhecimento do seu valor intelectual e braçal, muitos transformados em lei na Constituição de 1988, outros depois da Constituição e outros caminham em processo no legislativo. Neste sentido, um avanço importante foi a aprovação da Lei Maria da Penha. Vitória das mulheres contra a violência praticada sem punição aos “machões”. Isso vem reforçar a importância da organização e da perseverança na luta contra todo tipo de preconceito e violência.

O dia 8 de março é uma data para ser comemorada como resgate dessas lutas e reconhecimento da dedicação e da entrega, muitas das vezes, da própria vida, de mulheres que não deixaram de se indignar com tantos preconceitos e discriminações. É também um convite à reflexão da vida humana, do papel de cada homem e de cada mulher na sociedade e do que é realmente necessário para uma vida justa e fraterna sem distinção de gêneros.

Março de 2015.

domingo, 1 de março de 2015

Hino ao Amor – O Amor jamais passará! Fernando Henriques - Cebi Méier


CEBI MÉIER
Comunidade Renato Cadore

Hino ao Amor – O Amor jamais passará!

  
Fernando Henriques
coordenador

“É como a chuva que lava
  É como o fogo que abrasa.
  Tua Palavra é assim.
  Não passa por mim sem deixar um sinal”.
(Mantra pós-leitura usual no CEBI).

    Paulo era fabricante de tendas (At 18,3). Conforme os costumes da época, deve ter aprendido a profissão do próprio pai. Tal aprendizado começava aos treze anos de idade e durava dois ou três anos. O aprendiz trabalhava de sol a sol e obedecia a uma disciplina rígida. Aprendia a profissão, ou para ter um meio de vida como trabalhador, ou para suceder ao pai como administrador dos negócios. Isso dependia do tamanho da fortuna do pai. (...) Paulo fazia questão de dizer que era Cidadão Romano (At 16,37;22,25), e que tinha esse direito “de nascença” (At 22,29), isto é, recebeu-a do pai! (...) Como cidadão, Paulo era membro oficial da cidade (polis) e podia participar da assembleia do povo, onde se discutia e se decidia tudo que dizia respeito à vida e à organização da polis (cidade). Daí vem a palavra política. (Paulo Apóstolo: um trabalhador que anuncia o Evangelho, Carlos Mesters, págs.18-19, coleção Por Trás das Palavras, Editora Paulus, 11ª edição, São Paulo, 2008).

     O Hino ao Amor é uma poesia belíssima que se inspirava numa poesia bonita sobre a sabedoria que se encontra no livro da Sabedoria (Sb, 7,22-30). Trata-se provavelmente de um cântico que o pessoal já cantava nas celebrações da comunidade. Mas da maneira como este hino agora se encontra na Primeira Carta aos Coríntios, ele deve ser interpretado, em primeiro lugar, a partir dos problemas lá da comunidade de Corinto, principalmente na questão dos dons das línguas que estava criando divisões no interior da comunidade. (A Comunidade: o retrato de Deus nos rostos humanos (Primeira Carta de Paulo aos Coríntios), Carlos Mesters e Francisco Orofino, págs. 84-85, Edição CEBI – Centro de Estudos Bíblicos, São Leopoldo, 2008)

    O caminho que ultrapassa a todos os dons e ao qual todos os membros da comunidade devem aspirar é o amor. “Deus é amor” (1 Jo 4,8). Jesus é o enviado do amor (Jo 3,16), e o centro do Evangelho é o mandamento do amor (Mc 12, 28-34), que sintetiza toda a vontade de Deus (Rm 13, 8-10). O amor é a fonte de qualquer comportamento verdadeiramente humano, pois leva a pessoa a discernir as situações e a criar gestos oportunos, capazes de responder adequadamente aos problemas. Os outros dons dependem do amor, não podem substituí-lo, e sem ele nada significam. O amor é a força de Deus e também a força da pessoa aliada de Deus. É a fortaleza inexpugnável que sustenta o testemunho cristão, pois “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. O amor é eterno e transcende tempo e espaço, porque é a vida do próprio Deus, da qual o cristão já participa. É maior do que a fé e a esperança, que nele estão contidas. (Bíblia Sagrada, edição pastoral, comentários de Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin, Editora Paulus, 1990).

    Paulo reafirma a perenidade do amor (1 Cor 13,1-13). Ao contrário de todos os outros dons, carismas e serviços, “o amor jamais passará!”. Tudo desaparecerá com o tempo. Ninguém será lembrado pelas línguas, pela profecia, pela ciência, pelos títulos, pelos cargos, pelo poder, enfim, por tudo aquilo que é “limitado” pelas condições humanas. O ser humano atingirá sua perfeição, ou seja, superará todos os seus limites, através de sua capacidade de amar. Paulo lembra que só uma pessoa adulta e madura é capaz de amar. Só consegue amar “quem deixa de lado as coisas de criança”. Amar supõe maturidade. A vida cristã madura supõe a fé, a esperança e a caridade. Mas o que justifica tudo, a maior das virtudes que é “o dom mais alto” (12,31), é o amor. (Carlos Mesters e Francisco Orofino, op. Cit., pág 85).

   O CEBI Méier convida você a participar da leitura orante do Hino ao Amor que Paulo inscreveu na Primeira Carta aos Coríntios. Com este encontro iniciamos nossas atividades em 2015. Participe desta reflexão trazendo sua Bíblia e algo para partilhar.

   O CEBI dispõe de duas salas em uso permanente na Casa Pe Dehon (Rua Vilela Tavares, 154, Méier), espaço cedido pela Paróquia da Igreja Católica Romana do Sagrado Coração de Jesus. Os encontros são semanais, aos sábados, de 8:30 às 12 horas.

Programação para março de 2015:

07/03  – Hino ao Amor – Leitura Orante – Paulo 1 Cor 13, 1-13.

14/03  – Evangelho de Mateus: Jesus é o Messias?  – capítulo 11.

21/03  – Curso Popular de Bíblia: Sabedoria: Coragem e Ternura.


28/03  – Evangelho de Mateus: Jesus age por Deus ou pelo Demônio? – capítulo 12.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Apocalipse já! Gleides - Cebi Nova Iguaçu

                                                     Apocalipse já! 


          Em meio às alegrias do Carnaval, o noticiário de ontem a tarde abriu espaço para veicular a execução de 21 cristãos egípcios pelo grupo Estado Islâmico. Eles teriam cruzado a fronteira com a Líbia em busca de trabalho.
          Não foi dito, mas, provavelmente, são cristãos coptas. "A Igreja Ortodoxa Copta é a Igreja Cristã Nacional do Egito, e uma das igrejas da ortodoxia oriental mais antiga do mundo. Pela tradição, foi estabelecida por Marcos em meados do primeiro século. No Egito, hoje, são cerca de 8 a 12 milhões de seguidores." (1).
          Uma das lacunas no estudo das origens do cristianismo está, exatamente, no continente africano.
          Estavam lá, os 21 homens ajoelhados, todos vestidos com macacão cor laranja, ladeados por seus executores. Fico tentando imaginar o que passava por seus corações e mentes enquanto aguardam terem suas cabeças cortadas.
          Há pouco tempo, meninas foram sequestradas de uma escola cristã na Nigéria por um grupo que, como o próprio nome já diz - Boko Haram - não aceitam a educação que não seja islâmica.
          João, na ilha de Patmos, não poderia imaginar quantas "Bestas" ainda se levantariam do mar ou do deserto.
          A Besta do Apocalipse exigia adoração e obediência irrestrita.
         O poder absolutizado, que exige apoio ao seu projeto ou que seja professada unicamente a sua fé, continua arrastando mártires aos "Coliseus" da História. 
          Nossos irmãos coptas agora têm outra cor para suas vestes.
          Como João, quero imaginá-los com suas novas vestes brancas na presença do Cordeiro, unindo-se aqueles (as) "que veem chegando da grande tribulação (Ap. 7,13-15)”. 
                                                                                           
                                                                                                                   Gleides - Cebi Nova Iguaçu
                                                                                                                       
(1) Wikipédia

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Uma breve reflexão sobre o lema Campanha da Fraternidade 2015 da Igreja Católica Romana - Valdeci de Oliveira - Biro

 Uma breve reflexão sobre lema Campanha da Fraternidade 2015 da Igreja Católica Romana: “Porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos (Marcos 10,45)”.

Enviai vosso Espírito de verdade para que a sociedade se abra à aurora de um mundo mais justo e solidário, sinal do reino que há de vir. Por Cristo Senhor nosso. Amém!(Oração da CF 2015)

Nosso objetivo é destacar algumas palavras chaves deste versículo para uma melhor compreensão dos termos a partir da sua origem dos escritos originários do grego da época do Novo Testamento, mas com uma significação simples e fácil para o nosso entendimento na vida pastoral na atualidade. Duas coisas destacam-se aqui: primeiro nosso artigo será limitado por conta do limite de nossas linhas. Segundo, este artigo ficará mais interessante se você leitor for às citações bíblicas e ler as passagens onde os termos se encontram na bíblia, assim entenderás como era o contexto escrito de todas as palavras escrita em cada cena no Novo Testamento.
Em consonância com o tema da Campanha da Fraternidade de 2015 da Igreja Católica Romana, destacamos algumas palavras chaves como: Filho do Homem, servir, vida e resgate. Palavras com uma significação chave para abrir novos olhares em vista de um horizonte da escuta da palavra da Criadora de Deus, da nossa conversão para vida em abundancia e do nosso testemunho profético de Jesus Cristo, impulsionado pelo Espírito da Verdade. Vamos a elas.  
A importância do título bíblico “Filho do Homem” é uma expressão encontrada no Antigo Testamento e os autores sagrados do Novo Testamento a utilizam com uma nova roupagem do novo messias a partir da pessoa de Jesus. Então, Filho do Homem aqui é Jesus. Jesus é Filho de Deus, mas este nome mostrava que Jesus era um homem no sentido gênero humano e individual no sentido antropológico também. Jesus chama a sim mesmo de Filho Homem, essa expressão aparece 82 vezes nos Evangelhos, ela aparece em Atos 7,56, no Livro do Apocalipse 1,13; 14,14. A intenção dos autores sagrados do Novo Testamente ao assumir esse título, estavam afirmando uma promessa futura aos judeus e abertura universal a outros povos: Eu sou o Filho do Homem e essa é a profecia, que está no livro de Daniel 7,13–14 este é o nome usado para o Messias (Cristo).
 A palavra grega “diaconia” que significa servir. Mas como devemos empregar esse termo correto no contexto bíblico? Apontamos alguns como no sentido de servir à mesa daqueles que necessitam de matar sua fome e sede Lc 12,37; 22,26s; Jo 12,2. Servir no sentido do resgate da vida. Mt 4,11; Mc 10,45; At 19,22; 2° Tm 1,18; 1° Pd 1,12; Auxiliar no sentido de ser suporte pastoral em comunhão a Jesus, o Bom Pastor Mt 27,55. Cuidar no sentido de atenção àqueles que ficamos indiferentes na comunidade e na vida At 6,2; 2 Cor 3,3. Ajudar, apoiar, em tudo que for necessário para fortalecer a comunidade Mt 25,44; Lc 8,3; Hb 6,10.—3. Servir como diácono, símbolo da prática pastoral, que não divide a comunidade. Todos somos diáconos em Cristo 1° Tm 3,10. 13.
A palavra “vida” tão cara ao Evangelho de Cristo. No grego ela é descrita como alma. Frequente é impossível traçar limites claros e definidos entre os significados desta palavra, pois ela tem muitos simbolismos e carregada de significados. Vamos a elas. Vida em seus aspectos físicos como (fôlego da) vida, princípio vital, alma Lc 12,20; At 2,27; Ap. 6,9. No sentido da vida terrena em si Mt 2,20;20,28; Mc 10,45; Lc 12,22; Jo 10,11; At 15,26; Fl 2,30; 1° Jo 3,16; Ap 12,11.A alma como sede e centro da vida interior de uma pessoa, em seus muitos e variados aspectos: desejos, sentimentos, emoções Mc 14,34; Lc 1,46; 12,19; Jo 12,27; 1° Ts 2,8; Hb 12,3; Ap 18,14; coração Ef 6,6; Cl 3,23; mente Fp 1,27. A alma como a sede e centro da vida que transcende a terrena Mt 10,28; 39;11,29; 16,26; Mc 8,35-37; 2 Cor 12,15; Hb 6,19; Tg 1,21; 1° Pd 1,9;2,11. Algumas vezes expressa um relacionamento reflexivo e pode ser traduzida por ego, eu mesmo, eu, mim Mt 26,38; Mc 10,45; Jo 10,24; 2° Cor 1,23; Ap 18,14. Por metonímia aquilo que possui vida ou uma alma, criatura, pessoa At 2,41; 43; 3,23; 27,37; Rm 2,9; 1° Cor 15,45; 1° Pd 3,20; Ap. 16,3. Psique, psico-prefixo de várias palavras psicologia, psicoterapia.
A palavra lutron no grego que traduzida significa “resgate” termo muito utilizado no contexto do Império Romano, a partir do comércio mercantilista escravagista. Lutron esta ligada a libertação daqueles que vivem sob várias formas de escravidão em seus vários sentidos como veremos a palavra resgate no sentido do preço de libertação Mt 20,28; Mc 10,45. Ao libertar ao pagar um resgate. 1° Pd 1,18. Libertar e não se corromper. Lc 24,21; Tt 2,14; At 28,19: redenção, resgate, libertação Lc 1,68; 2.38.
Conclusão que o serviço de Jesus será dar a vida como resgate. Jesus chega ao extremo, oferecendo sua vida (Rm 3,24; 1ºCor 1,30). E nós o que oferecemos a Deus?

Fontes consultadas:
BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus Editora, 2002.
Diccionario Bíblico Mundo Hispano, et ali J. D. DOUGLAS: Editorial Mundo Hispano, 2003.
GINGRICH, F. Wilbur & DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento grego/português. São Paulo: Vida Nova, 1993.

Valdeci de Oliveira Biro
Pós-Graduando em Assessoria Bíblica Centro de Estudos Bíblicos
 Escola Superior de Teologia Bíblica Luterana de São Leopoldo-RS

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Contexto religioso do evangelho de João - O conflito na base da comunidade. Roberto e Afonso

                                  Contexto religioso do evangelho de João
                                   O conflito na base da comunidade.

                                                                                 Roberto e Afonso


1-     A confissão de fé em Jesus Cristo e o testemunho cristão no mundo nascem de um conflito concreto vivido pelas comunidades Joaninas.

A comunidade Joanina tem uma longa historia. A sua maneira de testemunhar o evangelho de Jesus Cristo atraia vários grupos de Judeus, e depois de pagãos. De fato a origem dessa comunidade está ligada ao “Discípulo Amado”. Este não era um dos doze, mas era discípulo e amigo de Jesus.
O tipo de pregação que a comunidade  fazia atraia, em primeiro lugar, os discípulos de João Batista, essênios e samaritanos; grupos esses que já tinham um certo preconceito em relação ao Templo de Jerusalém.
Atraíam também Judeus-Helenitas em peregrinação à Terra Santa  e que também tinham mais facilidade  de ver  a presença de Deus em seu povo através de Jesus Ressuscitado do que no templo de Jerusalém.
N medida em que a comunidade joanina ia desenvolvendo a sua cristologia (cf, Jo5,18ss), primeiro começou a ter problemas com os sacerdotes do Templo, depois  com os fariseus, e, finalmente, com as próprias comunidades fundadas pelos Doze. Com o correr do tempo, isso leva essa comunidade a sair da Palestina e a instalar-se na Ásia Menor. E a maioria dos comentadores acha que o local mais indicado para compreender a sua vida  e os seus conflitos é a cidade de Éfeso, na Ásia Menor.

2 -  Formação  da comunidade e Grupos religiosos ( anos 50 /80 aproximadamente).

A tradição situa as comunidades joaninas na região de Éfeso, na Ásia Menor (veja o mapa). A origem dessas comunidades não pode ser determinada com exatidão. Foram surgindo lentamente durante 30 anos aproximadamente. O Evangelho e as Cartas não nomeiam nem situam as comunidades geograficamente. No Apocalipse os capítulos 2 e 3 falam de sete (7) comunidades concretas ou igrejas (Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia, e Leocádia). Certamente as comunidades joaninas eram muito mais numerosas. A comunidade mais velha provavelmente era Éfeso, o ponto de partida para a expansão da mensagem cristã.
 Os grupos de origem das comunidades ligadas ao Discípulo Amado viviam na Palestina, provavelmente na Galiléia. Comunidades que foram se formando a partir de um grupo de cristãos de origem judaica. Comunidades acolhedoras que recebiam qualquer pessoa de qualquer procedência: os discípulos de João Batista (cf. Jo 1, 35ss), os samaritanos (cf. Jo 4), os helenista (cf. Jo 7, 35; 12, 20), os judeus expulsos da sinagoga (cf. Jo 9, 22; 12, 42. 16,2).
O que vem acarretar conflitos externos e confrontos inevitáveis (80 -100, aprox), mas essa pluralidade de culturas faz crescer e enriquecer a fé. A comunidade joanina é uma afluência de vários grupos com suas respectivas tradições religiosa.
a) Grupo  “mundo”
Essa palavra tem pelo menos 4 significados: existência, universo, humanidade e sociedade (sociedade corrompida, injusta e opressora). Trata-se da sociedade greco-romana, com suas leis, sua cultura, seu sistema político-econômico e principalmente, seu poderio militar. Naquele contexto histórico-social, o mundo em que se inseria a comunidade joanina tinha interesses coincidentes com o judaísmo formativo. O povo judeu jamais se conformara com a dominação romana.
b) Grupo “judeu”
         A palavra “judeu”, no Evangelho às vezes representa todo o povo judeu. Nesse caso, por trás escondem-se as autoridades do povo judeu, em parte responsáveis pela morte de Jesus e dos cristão no tempo em que o Evangelho está sendo escrito. Havia  os judeus da sinagora que erxpulsaram os cristãos (9,22) e também os judeus que criam em Jesus (2,23-25) .
c) Grupo  “seguidores de João Batista”
           Atos 19,1-7 dá a entender que, desde o ano de 54, em Éfeso, já havia seguidores de João Batista, personagem importante no Evangelho de João. Estudos recentes afirmam que o Prólogo (Jo 1,1-18), esse hino, na sua origem seria uma poesia dedicada a João Batista. De fato, examinando Jo, 1-18, nota-se que os versículos 6-8 e 15 são uma espécie de cunha, um acréscimo para esclarecer que João Batista é simples testemunha que leva as pessoas a crer em Jesus. Ele reconhece que deve diminuir até desaparecer, ao passo que Jesus deve crescer (3,30), e à medida que dá testemunho, se esvazia e perde discípulos (1, 35-39). Nessa dimensão, é sinal de que as comunidades joaninas tiveram sérios enfrentamentos com os seguidores de João Batista. Em 3,23-36 o problema é que Jesus batiza e tem mais discípulos que João.
d) Grupo  “criptocristãos” (cristãos “em cima do muro”)
         São pessoas que deram sua adesão a Jesus, mas têm medo de confessar publicamente a própria fé. Se fizessem seriam expulsos da sinagoga como o cego que Jesus curou na piscina de Siloé (Jo 9,1-38). Duas personagens do Evangelho de João representam bem esse grupo: são Nicodemos e José de Arimatéia. Os dois pertenciam à elite dos judeus. José de Arimatéia usa seu prestígio (talvez pagando propina) para convencer Pilatos a deixar que o corpo de Jesus seja retirado da cruz (Jo 19,38b). Os romanos deixavam os corpos apodrecendo na cruz, para servir de alerta a quem ousasse discordar do sistema, do “mundo”.
e) Grupo   “cristãos judeus de fé inadequada” (insuficiente)
         As comunidades do Discípulo Amado não poupam críticas a esse grupo em seu Evangelho. O grupo segue Jesus até servir aos próprios interesses. O trecho a seguir começa reclamando desse grupo e termina mostrando a desistência do mesmo (Jo 6,60-66).
f) Grupo  “cristãos das igrejas apostólicas” (hierarquizadas)
          As comunidades joaninas não tinham um poder centralizado e centralizador como as outras comunidades cristãs do fim do I século e início do II século. Eram extremamente fraternas e iguais. A imagem mais significativa a esse respeito é a da videira (Jesus) e os ramos (os fiéis) capítulo 15. Para entender basta observar o papel das mulheres no Evangelho de João. As comunidades joaninas reagem contra as igrejas hierarquizadas representadas por Pedro. Pedro ao encontrar-se com Jesus pela primeira vez recebe um desafio que é procurar a própria identidade, representada pelo nome que Jesus lhe impõe, Cefas. Mas Simão nunca é chamado de Cefas. Jesus o chamava se Simão, filho de João.  (21,15-19). Excetuado dois textos (Jo 6, 67-71) e o capítulo 21, que certamente são acréscimos posteriores, Pedro se debate constantemente à procura de um eixo que lhe dê equilíbrio.
g) Grupo dos dissidentes
Grupos com outras idéias, como helenizantes ou gnósticos, Mais que no Jesus historico, acreditavam no Jesus transfigurado.

3-  Conflitos da Comunidade 

      A comunidade enfrenta duas graves ameaças: a expulsão da sinagoga e a crise de fé. Para um judeu, a expulsão da sinagoga era uma verdadeira tragédia: era cortar suas raízes  sócio-religiosas. Era como degradá-lo. Privá-lo de seus direitos de cidadania e bani-lo. Grande parte dos membros da comunidade joanina vivia esse drama. (Por volta do ano de  85 os cristãos  , que atè então iam para as sinagogas discutir as leis e os profecias com os judeus, são expulsos. Esse conflito foi denominado Reunião de Jamnia, pois foi ali que os Judeus se reuniram e acrescentaram a décima nona “benção” – “Maldito todo aquele que segue o  Nazareno !”
      Mas o desafio maior vinha da própria fé na encarnação. Neste sentido, é muito ilustrativo o capitulo 6. Depois da partilha dos pães,  Jesus vai para cafarnaum. Ao percebê-lo, a multidão embarca, atravessa o lago e vai ao seu encontro. Questionado,  Jesus faz o belo discurso em que se identifica como o maná do deserto e se proclama o verdadeiro pão descido do céu. Explode então uma crise de fé e muitos o abandonam (Jo 6,60-66). (As dificuldades entre  cristãos e judeus  se acentuaram. Muitos abandonaram as sinagogas e assumiram a fè cristã, outros abandonaram as comunidades e se uniram definitivamente às sinagogas, seus lugares de origem.)
      Além disso, tem de defender-se da infiltração do gnosticismo e do docetismo que desviam da pratica cristã originária, vivida e proposta por jesus de Nazaré.  A doutrina gnóstica afirma que a pessoa humana se salva graças a um conhecimento religioso especial, secreto e individual.  Os gnósticos pretendiam ser iluminados e livres do pecado e das tentações.  Não davam nenhuma importância à prática comunitária de amor ao próximo.
       O docetismo negava a encarnação do Filho de Deus. Afirmava que a humanidade de Jesus não passava de uma aparência, não podia ser uma realidade objetiva porque não admitiam que Deus pudesse assumir a nossa condição humana.
       A comunidade joanina pode ser assim caracterizada: comunidade de periferia, sem poder, marginalizada e excluída do sistema. O cego de nascença, como representante da comunidade  è expulso da sinagoga( Jo 9). Os samaritanos, excluídos pelo judaísmo oficial, são acolhidos carinhosamente (Jo 4,41-42).

4- O Desaparecimento das Comunidades Joaninas.(por volta do ano 110)

        A parceria das comunidades joaninas com as igrejas hierarquizadas teve consequências claras. O conflito interno foi superado. O grupo que criava discórdia dentro das comunidades joaninas foi afastado e se incorporou ao gnosticismo fazendo uma leitura gnóstica do evangelho de João , o que reforçou a desconfiança das outras comunidades  cristãs em relação ao evangelho.
          As comunidades joaninas tiveram que ceder e se adaptar ao novo jeito de ser igreja.  Abandonaram o evangelho de João para adotar o de Mateus. Cederam com inteligência e criatividade ,  mas  o preço foi alto e fatal: pouco a pouco  foram absorvidas pelas comunidades hierarquizadas e diluíram se nelas.
            Foram acrescentados  ao evangelho de João alguns textos importantes referentes a figura  representativa de Pedro (Jo 6,67-71 e o capitulo21) e à Eucaristia( Jo 6,51-58).
            O evangelho de João passa por um longo processo de silencio e desconfiança. Muito tempo depois, alguns escritores cristãos sem preconceitos o recuperam sem a influência do gnosticismo.

5-  Conclusão

             O capitulo 21 do evangelho de João reflete essa tensão (hierarquia x poder serviço). Unir as duas maneiras de ser igreja é um desafio constante até hoje.                                                                                                                                
  

6- Anexos

                                  Anexo 1: o movimento gnóstico
             Para bem entender os escritos pós- apostólicos, convém conhecermos alguns pontos centrais do gnosticismo.
             A palavra  gnóstico vem de “gnose”, que em grego significa conhecimento. O gnosticismo é um movimento religioso e filosófico que já existia no mundo greco- romano quando surgiram as primeiras comunidades cristãs e que teve seu auge no segundo século. A doutrina desse movimento tem sua origem na filosofia grega e em diversas religiões e correntes espirituais. Era uma mistura de ideias  desde a cultura do Irã, da Babilônia, do Judaísmo e do Egito, incluindo o pensamento grego.
                Diferentemente do Judaísmo, que propunha a Lei como caminho de redenção, os gnósticos apresentavam o conhecimento divino como  caminho para a verdadeira salvação.  Conhecimento que não se alcançava somente por esforço humano, mas era recebido por meio de uma revelação divina  vinculada à faísca de Deus adormecidas nas pessoas, transformando-as inteiramente e conduzindo-as à vida verdadeira. Os adeptos do gnosticismo consideravam seu conhecimento superior ao das pessoas que não seguiam seu movimento.
               O pensamento gnóstico é fortemente dualista. Por um lado, vê o mundo, a matéria de forma muito negativa, sob o domínio das forças do mal, das trevas.  O corpo humano está nessa esfera.  Como todo o cosmos, incluindo o corpo humano, encontra-se nas trevas, governado por forças inimigas, entregue à perdição, às paixões.  A matéria como prisão das centelhas divinas
                  Por outro lado, está a luz divina, lugar de onde se originam as almas das pessoas, que estão adormecidas e presas nos corpos, na matéria.  Adquirir conhecimento capacita as pessoas para percorrer o caminho de volta à dimensão divina.
                      Nesse sentido, os gnósticos entendem a alma como um núcleo divino que se encontra prisioneiro no corpo das pessoas.  Para vencer seus prazeres, seu egoísmo e seus desejos carnais, o corpo devia ser desprezado e castigado, além de ser afastado de todas as coisas  materiais, o mundo.  Para se libertar ,  a alma precisa alcançar a sabedoria, o conhecimento.  Uma vez liberta, ela volta a fazer parte da esfera divina.
                      Esse pensamento também encontrou adeptos nas comunidades cristãs. Os gnósticos cristãos entendiam Jesus como o salvador que revela o conhecimento de Deus à humanidade.  Ele terá descido em forma humana.  No entanto, não era verdadeiramente homem.  Não teria passado pelo sofrimento e pela morte.   Propunham também um desprezo por tudo que tem a ver, segundo seu pensar, com as coisas terrenas como, por exemplo, o casamento (1 Tm 4,3).
                       Os gnósticos cristãos estavam preocupados com a busca da revelação do conhecimento divino e com o distanciamento de tudo que estava ligado às coisas materiais.  Afastavam-se de um Cristo encarnado na condição humana (1Jo 4,2-3; 2Jo 7) e envolvido na promoção da vida de quem estava à margem da  cidadania, tendo  que enfrentar, consequentemente, sérios conflitos com quem detinha o poder político, econômico e religioso.  Dessa forma os gnósticos cristãos promoviam um cristianismo voltado à busca da sabedoria.  Transformavam o evangelho do reino em uma religião que não representava nenhum perigo às estruturas desse mundo, limitando –se  demasiadamente à libertação interior, uma religião de elite, letrada e economicamente superior.
                  É possível que o mago simão de at 8,9-24 seja um gnóstico que se dizia ser portador da revelação divina.

                                     Anexo 2 : a expulsão da sinagoga.
                   A sinagoga tinha um papel central na vida das famílias  judias, particularmente na diáspora , onde surgiu.  Era a casa de oração , de adoração ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó.  Nela se guardavam os rolos da Torá, expressão máxima da presença de Deus depois que o Templo de Jerusalém foi ao chão. E Não só. Era também:                                                                                 
  1- o espaço de alfabetização e de estudo das escrituras;
2-o local de reunião em que eram discutidos e resolvidos os problemas internos da comunidade judaica;
3-o canal de comunicação entre a comunidade e as autoridades civis (com direito inclusive  a cobrar impostos para si e a recolhê-los para o império);
4- a responsável pelos recursos comunitários destinados  a aliviar as necessidades  dos abandonados (órfãos, viúvas e enfermos);
5-  a administradora do campo santo, único local onde os judeus se sentiam enterrados com dignidade fora de sua pátria.
                         Toda a vida das famílias judaicas girava em torno da sinagoga.  Colocar – se fora desinagoga ficavam proibidos de comprar e vender dos dissidentes.  Estes, por sua vez,  perdiam todos os direitos que somente por meio dela poderiam usufruir: educação, convívio cultural, participação politica, defesa diante dos desmandos do estado, assistência social... e até enterro!  Poucas coisas  podiam ser tão aterrorizantes como ter negado o direito a ser enterrado.  E as lideranças souberam usar bem essa situação para implementar  seu projeto.  O medo de ser expulso da sinagoga transparece em vários momentos do evangelho (Jo 9,22; 12,42 la ou ser expulso era uma desventura com consequências quase insuperáveis.  Sem  a mediação da sinagoga, os dissidentes não podiam aprender uma profissão.  Sofriam embargo econômico da própria comunidade.  Os judeus  que permanecessem fiéis ao cristianismo.

                   Trabalho apresentado por Roberto e Afonso durante o 1º seminário do grupo CEBI Graça de Duque de Caxias -que aconteceu no dia  25/01/15.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Benção para o Ano Novo

Que a água seja cristalina
que o vento sopre leve
que a chuva inspire poemas
que a mesa seja farta
que o vinho traga alegria
que a fé nunca falte
que a vida nos surpreenda
que nunca nos falte o desejo
         de recomeçar.


Autoria não identificada

sábado, 27 de dezembro de 2014

Reino de Deus: o que é? Fernando Henriques - Cebi Méier

CEBI MÉIER
Comunidade Renato Cadore

Reino de Deus: o que é?

Fernando Henriques
coordenador

“E Jesus continuou dizendo: ‘O Reino de Deus é como um homem que espalha a semente na terra. Depois ele dorme e acorda, noite e dia, e a semente vai brotando e crescendo, mas o homem não sabe como isso acontece. A terra produz fruto por si mesma: primeiro aparecem as folhas, depois a espiga e, por fim, os grãos enchem a espiga. Quando as espigas estão maduras, o homem corta com a foice, porque o tempo da colheita chegou’”. (Ev. Marcos 4, 26-29; edição pastoral)


    O Reino de Deus é como quando um homem lança a semente na sua terra. Enquanto dorme ou se levanta, de noite e de dia, a semente germina e cresce sem que ele saiba como (cf Marcos 4, 26-29). Jesus fala do reino para galileus pobres como ele, sem grande ilustração literária. Lavradores em sua maior parte. Acostumados a lidar com a terra. Jesus lhes fala utilizando imagens que eles conhecem muito bem: a semente jogada na terra, a germinação ainda misteriosa, o crescimento da planta, a floração, a espiga e o fruto que se faz maduro. É o tempo da ceifa, de colher o fruto da terra. Ninguém sabe realmente como todo o processo decorre, mas aqueles camponeses sabem que o seu trabalho aplicado à terra que o próprio Deus lhes deu assegura que a fome não será uma tormenta. Será festa no meio do povo. O mesmo acontece com o Reino de Deus. Já está atuando de maneira oculta e secreta. Só é preciso esperar que chegue a colheita. 
    A Boa Nova de Jesus foi a pregação da chegada do reinado de Deus, que ele mandou também seus discípulos anunciar. Para Jesus, o reino dos céus é a realização, aqui na terra, da vontade de Deus, que não é senão seu amor paterno, exigindo que nos tratemos como irmãos. Tal pregação leva Jesus a um radical questionamento da maneira formalista e egoísta em que estava sendo vivida a Lei de Moisés.
    O Reino é um presente precioso de Deus ao semeador. Mas é necessário que ele espalhe a semente, provisione água, cuide da terra. Deus faz o trabalho fundamental, mas quer que participemos dele. Com o trabalho que podemos fazer, não mais. Deus está fazendo crescer a vida, a colheita chegará com toda certeza. Cabe-nos ter paciência, nós, semeadores de todos os tempos. 
    Com o Reino de Deus acontece o mesmo que acontece com um grão de mostarda. É menor que qualquer semente que se semeia na terra; mas uma vez semeada, cresce e se torna maior que todos os arbustos (cf. Marcos, 4, 31-32). Jesus parece nos dizer para não esperarmos uma chegada triunfante do Reino, mas a procurá-lo nas coisas menores, miúdas, perceber o Deus misericordioso atuando já nas coisas pequenas e insignificantes.  Os pequenos e excluídos deste mundo vão se tornar os incluídos do Reino de Deus.
    Com o Reino de Deus acontece a mesma coisa que acontece com o fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo ficou levedado (cf. Lucas, 13, 20-21). O pão ázimo era considerado o símbolo perfeito do puro e santo. Entretanto Jesus desconcerta seus ouvintes ao falar da levedura que atua na massa para forjar o Reino de Deus. Talvez percebamos então porque Jesus se movimentava em meio a cegos, paralíticos, leprosos, publicanos e prostitutas, gente que não era pura e santa. Ao falar assim para aqueles despossuídos, Jesus procura despertar neles a alegria e a decisão diante da chegada do Reino de Deus. 
    O Reino de Deus é como um tesouro escondido num campo. Um homem que o encontrou volta a escondê-lo e, por causa da alegria que sente, vai, vende tudo o que tem e compra o campo (cf. Mateus, 13,44). Um homem, pobre agricultor, escava em terra alheia e encontra um tesouro. Não pode perder aquela oportunidade. Não pensa duas vezes. Vende tudo e se apropria do tesouro. Ao contrário do jovem rico aquele lavrador vende todos os bens e adentra o Reino. Essa oportunidade não pode ser desperdiçada.
   O Reino de Deus assemelha-se a um mercador que anda à procura de boas pérolas e que, ao encontrar uma pérola de grande valor, vai, vende tudo o que tem e a compra. (cf. Mateus, 13, 45-46). O homem não sofre de indecisão, age rápido, vende todos os bens e compra a pérola preciosa. O Reino de Deus é um tesouro oculto que escapa aos olhos de boa parte dos homens. Outras riquezas se fazem mais facilmente visíveis. Deus não impõe o seu Reino, mas o esconde, qual tesouro à espera para ser encontrado. “Assim fez para que buscassem a Deus e, talvez às apalpadelas, o encontrassem, a ele que na realidade não está longe de cada um de nós” (cf Atos 17, 27). O Reino está escondido para a maior parte de nós, mas não tão escondido que não o possamos achar. E quando isso se der, há que ter decisão. Comprar essa pérola tão valiosa.
   O Reino de Deus é como o pai que tinha dois filhos. E o mais moço disse-lhe: “Dá-me a parte dos bens que me cabem”. O pai repartiu as riquezas e o filho mais novo partiu a fim de viver a sua vida (cf Lc 15, 11-32). Este pai misericordioso, que também é mãe bondosa, espera ansiosamente pela volta daquele filho. E quando este volta há que se fazer festa. Aquele pai não julga o filho que dilapidara os bens, não pratica justiça, mas envolve-o de um enorme amor. Trata-o com misericórdia. Não usa de sua autoridade, mas de sua bondade. Aquele pai, que é verdadeira mãe, comove-se ao ver o filho humilhado e extenuado pela fome. Calça-lhe sandálias, veste-o com roupas dignas, põe-lhe um anel. Aquele filho estava morto e voltou à vida. Então chegamos nós. Nós, o filho mais velho. Não queremos amor e sim justiça. Na verdade queremos vingança. Aquele filho de nosso pai fez o que sempre quisemos fazer, mas faltou-nos a necessária coragem. Nós nos recusamos a entrar na casa paterna e desfrutar o banquete da vida. Nem todos queremos entrar no Reinado de Deus. Entretanto aquele pai, aquela mãe, nunca nos fecharão as portas. Amorosamente aguardarão que nos disponhamos a entrar. Nos convidarão quantas vezes se fizerem necessárias.
     Com o reino de Deus acontece o mesmo que acontece com um proprietário que saiu à primeira hora da manhã para contratar operários para sua vinha (cf Mt 20, 1-15). Ele não paga a cada um segundo a sua produção, isto é, o seu mérito. Ele paga aos trabalhadores segundo as suas necessidades. Os contratados da undécima hora eram os mais fracos, os mais velhos, os possivelmente doentes. Há lugar para eles no Reino, e um lugar que lhes dá dignidade. A bondade do proprietário passa por cima de qualquer suposta justiça. E essa bondade na verdade não prejudica ninguém. A todos ele dá o que cada um necessita para viver, ele atua com bondade e amor generoso para com todos. Na verdade no comportamento daquele proprietário a justiça e a misericórdia se entrelaçam. 

      O amor de Jesus pelos pobres e oprimidos não era um amor exclusivo. Era um indício do fato de que ele valorizava a humanidade e não o prestígio de qualquer pessoa. Os pobres e oprimidos não tinham nada que os recomendasse a não ser sua humanidade e seus sofrimentos, a sua miséria. Jesus também amava os ricos, não porque fossem pessoas especialmente importantes, mas porque elas também eram pessoas. Jesus queria que eles se despojassem de seus falsos valores, de sua riqueza e prestígio, a fim de se tornarem pessoas reais, pequenas, e assim poder adentrar o Reino.
     Na sociedade do tempo de Jesus, nascer mulher era uma desvantagem, um sinal de que as orações do pai e da mãe não tinham sido ouvidas por Javé. As mulheres, como as crianças, não contavam nada. Não podiam se tornar discípulas de um escriba, nem membros dos partidos político-religiosos dos fariseus, saduceus, essênios ou zelotas. O papel da mulher era serviço doméstico e maternidade. 
      Jesus se distinguiu entre seus contemporâneos, como alguém que dava às mulheres exatamente o mesmo valor e dignidade que aos homens. As mulheres eram pessoas e era só isso que contava para Jesus. 
      Do mesmo modo que os pobres não recebem a promessa da riqueza, mas da completa satisfação de suas necessidades, assim também os pequeninos não recebem a promessa de prestígio, mas o pleno reconhecimento de sua dignidade como seres humanos. Assim também as mulheres. Para realizar isso seria preciso reestruturar a sociedade de modo completo e radical.
      O reino de Deus será, portanto, uma sociedade na qual não haverá nenhum prestígio, nenhuma riqueza, nenhuma divisão de pessoas entre superiores e inferiores. Todos serão amados e respeitados, não devido à sua educação ou à sua riqueza, a seus antepassados, à sua autoridade, categoria, virtude ou qualquer outra realização, mas porque todos são igualmente pessoas.
   Aqueles que não possam suportar que mendigos, prostitutas, empregados, mulheres e crianças sejam tratados como seus iguais, aqueles que não possam viver sem se sentirem superiores, ao menos em relação a algumas pessoas, simplesmente não se sentirão em casa no reino de Deus. Esses vão querer se excluir do reino.

      As obras “Jesus aproximação histórica” (José Antonio Pagola, editora Vozes, Petrópolis, 4ª edição, 2011) e “Jesus antes do cristianismo” (Albert Nolan, editora Paulus, S.Paulo, 5ª edição, 2003) serão o texto-base para esta reflexão sobre o anúncio do profeta Jesus de Nazaré.
 
     A Comunidade Renato Cadore, o CEBI Méier, no mês de dezembro refletiu sobre o Reino de Deus.
Venha participar do nosso grupo em 2015!!!!

CEBI Méier (Casa Pe Dehon, sábados, de 8:30 às 12 horas). Retomaremos nossos estudos em março/2015.