domingo, 13 de dezembro de 2015

2º Domingo de Dezembro: Dia da Bíblia - Gleides - CEBI Nova Iguaçu

Domingo de Dezembro: Dia da Bíblia

      As igrejas protestantes e/ou evangélicas comemoram no 2º domingo de dezembro o Dia da Bíblia.
      A data corresponde ao 2º domingo do Advento, celebrado nos quatro domingos que antecedem o Natal.
      Criada em 1549 na Grã -Bretanha pelo bispo Cranmer que incluiu a data no livro de orações do rei Eduardo VI. O objetivo era interceder a favor de sua leitura.
      No Brasil esse dia começou a ser celebrado em 1850, quando chegaram da Europa e EUA os primeiros missionários protestantes.
      Porém, o mais importante são as histórias reais que esse livro inspira.

País de Gales - Reino Unido, final do século XVIII
     
      No vilarejo de Alan morava uma menina chamada Mary Jones que, como os demais membros de sua família, não sabia ler.
      Aos domingos participava do culto na igreja do vilarejo e ficava encantada com a leitura da Bíblia feita pelo pastor.
       Aos 10 anos ingressou na escola que chegou na vila e foi alfabetizada.
      O desejo de ter sua própria Bíblia levou a pequena Mary a trabalhar duro durante seis anos até reunir dinheiro suficiente para adquiri-La.
      E assim, aos 16 anos, partiu a pé para o vilarejo de Bala, distante 40 km, atravessando vales e ribeirões para realizar seu sonho.
      Ali, em casa do rev Thomas Charles, adquiriu a única Bíblia em galês que restava e que já tinha comprador mas, ao contar sua história, sensibilizou o religioso que lhe vendeu o precioso livro.
      De volta à sua vila Mary Jones pela primeira vez abriu e leu a Bíblia em sua casa. Foi lido o Salmo150.
      Inspirados na determinação dessa menina, em 7 de dezembro de 1804, líderes de várias igrejas criaram a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, em Londres, como objetivo de traduzir, imprimir e distribuir a Bíblia.
      Hoje são 140 Sociedades Bíblicas espalhadas pelo mundo, incluindo a Sociedade Bíblica do Brasil, criada em 1948.

Tinguá - Nova Iguaçu, outubro de 2014

      A festinha coordenada pela “tia” Paula em comemoração ao Dia das Crianças havia terminado.
      A garotada era só alegria com seus saquinhos de guloseimas e os brinquedos recebidos.
      Tia Paula, com tanto movimento, esqueceu que iria sortear um exemplar da Bíblia.  
           Foi quando ela avistou Juliana, uma menina de aproximadamente 12 anos que, pela primeira vez, participava dos eventos realizados no sítio. Ela aguardava a mãe que viria buscá-la.
      “Você já tem Bíblia, Juliana? Perguntou. Diante da resposta negativa ofereceu-lhe o exemplar que seria sorteado.
      A alegria que tomou o rosto da menina impressionou a todos.
      “Mãe, advinha o que eu ganhei? Uma Bíblia, mãe!”
      Sua mãe, então, relatou como a filha desejava ter uma Bíblia e de como insistentemente pedia que lhe fosse comprada.
      Ao contrário de Mary Jones, Juliana vive em uma época  em que as bíblias já não são tão caras e estão editadas em vários idiomas, inclusive os minoritários.
      O que essas meninas tem em comum e nos toca é o desejo de possuí-la e o carinho que dedicam a esse livro tão antigo.      
      Não apenas ouvir sua leitura mas poder lê-lo com os próprios olhos e coração.
      Ter a possibilidade de ler suas histórias, conhecer Jesus e aprender a gostar de Deus.
      Que o Deus da Vida, da Bíblia e das crianças abençoe Juliana e todas as meninas e meninos que irão ao Seu encontro através de sua leitura.
      Amém.

                                                                          Gleides - Nova Iguaçu

    

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

No silêncio da noite - homenagem à Maria Batista. - Gleides CEBI-Nova Iguaçu

                                           No silêncio da noite

Delicadamente
como viveu
partiu.

No silêncio da noite
fez sua pessach.

Sem despedidas
lamentos
resistência.

Adormeceu
para despertar
finalmente
na casa do Pai.

Adormeceu
embalada pelas lembranças
que, mansamente,
foram ficando pra traz:
Rostos
Sorrisos
Vozes
Medos
Canções
Mãos entrelaçadas 
em cirandas
Ternos olhares
Pequenas mãozinhas
Mesas compartilhadas
com alegria
Amores ...

Simplesmente partiu
ao encontro
d'Aquele que é o Amor.

Ah! Maria ...

Não adianta
Não esqueceremos você!

Um dia
voltaremos a nos encontrar.

Saudades

                                                                                                             
       Maria Batista (1946 - 2015)

                                                                         



                                                                               Gleides - Nova Iguaçu

terça-feira, 24 de novembro de 2015

África e Bahia - João Crispim Victorio Cebi Campo Grande - RIO (RJ)

África e Bahia

África, terra de tantos encantos
Canto para te saudar
Terra do povo negro
Salve os teus orixás...

Bahia, braço de continuidade
Que vontade de ficar
Terra de todos os santos
Canto para teus orixás...

Oxalá, que na força deste povo
Um grito novo possa ecoar
Laços de amizade e magia
África, Bahia e seus orixás...

África, terra de tantos encantos...

Bahia, terra de todos os santos...

Oxalá, canta o povo de todas as etnias...

África e Bahia
Cantam para seus orixás...


Poema de João Crispim Victorio
Extraído do livro: Poetas de Manguinhos (1997).

22 de novembro de 2015.

sábado, 7 de novembro de 2015

Ciência e Tecnologia, a serviço de quem? João Crispim Victorio - CEBI Campo Grande - Rio (RJ)

Ciência e Tecnologia, a serviço de quem?

João Crispim Victorio[i]

            Antes de qualquer coisa é preciso compreender o conceito e a evolução da Ciência e da Tecnologia dentro de um contexto histórico, social e ideológico, próprio da evolução humana. Dessa maneira iremos perceber que Ciência e Tecnologia caminham juntas, mas nem sempre dependente uma da outra; que quanto mais avançado em Ciência e Tecnologia for um determinado país, mais poder exercerá sobre os outros e, por fim, para a Ciência e a Tecnologia acontecerem são necessários investimentos, por um lado, intelectual, capacidade de criação do ser humano e, por outro, financeiro, pois no modelo político-ideológico que vivemos, sem o dinheiro, não há crescimento científico e tecnológico.
A palavra ciência deriva do latim "scientia" que significa conhecimento ou saber. Atualmente se designa por ciência todo o conhecimento que abarca teorias e leis gerais obtidas e testadas por meio do método científico. A Ciência, na verdade, comporta um conjunto de saberes com teorias elaboradas nas suas próprias metodologias. Dentre esse conjunto de saberes temos as Ciências da Natureza que descrevem, ordenam e comparam os fenômenos naturais determinando as relações existentes entre eles, formulando leis e regras. Podemos distingui-las como Ciências Exatas: física e química e Ciências Descritivas: biologia, geologia, medicina, entre outras.
Já a palavra tecnologia tem sua origem no grego “τεχνη” e “λογια” que significam ofício e estudo respectivamente, ou seja, o termo envolve conhecimento técnico e científico. Então, tecnologias são métodos elaborados para melhorar o funcionamento dos mecanismos de produção visando tornar mais rentáveis os investimentos e isso compreende desde as ferramentas mais simples até as mais complexas. Sendo assim, podemos definir tecnologia como sendo a aplicação do conhecimento científico por meio do estudo sistemático das técnicas para fabricar e fazer coisas conseguindo um melhor resultado prático. Portanto, isso demonstra que a Tecnologia está intimamente ligada a Ciência e ambas se completam para dinamizar a vida no mundo[1].
A religião, refiro-me aqui ao cristianismo, durante todo o processo de evolução humana, além das Ciências e das Tecnologias, torna-se um fator que merece destaque devido sua influência e interferência na vida e na história humana. A Bíblia, por exemplo, não é um livro científico, mas fala de ciência e está de acordo com fatos científicos bem diferentes das crenças de alguns povos que viviam na época em que algumas de suas histórias saíram da oralidade e ganharam a forma da escrita. Comparando com a periodização clássica da historiografia as histórias biblicas acontecem dentro do período que chamamos de História Antiga, em dois momentos. O primeiro, Antigo Testamento, de 1900 a.C. até o ano 1 da era cristã e o segundo, Novo Testamento, tem seu início a partir do nascimento, da trajetória, da morte de Jesus Cristo e seus discípulos, ou seja, até os anos 70 d.C.
Vejamos alguns exemplo dos relatos bíblicos[2] que demonstram, de forma interessante, essa ligação entre Ciência e Religião. Vamos iniciar esta tarefa com a questão do Universo:  segundo o livro de Gênesis o Universo tem uma criação (Gn1, 1). No entanto, para alguns povos antigos o Universo não foi criado e sim nascido de deuses e os seres humanos eram vítimas das ações imprevisíveis desses deuses,  sabemos, pois, que  o Universo é governado por leis naturais e não por caprichos dos deuses, conforme relatos no livro de Jó (Jó 38, 33) e de  Jeremias (Jr 33, 25); A Terra é suspensa no espaço vazio, conforme, Jó (Jó 26, 7). Porém, alguns povos antigos acreditavam que a Terra era achatada e se apoiava em um búfalo ou em uma tartaruga; ainda de acordo com Jó (Jó 36, 27-28) e, também, Eclesiastes (Ecl 1, 7) , entre alguns outros livros biblicos, a água evapora e cai em forma de chuva, alimentando os rios e os mares. Os povos antigos acreditavam e até o século 18, ainda se acreditava que eram as águas dos oceanos subterrâneos que alimentavam os rios; algumas práticas de higiene são relatadas em Levítico (Lev 11, 28 e 13, 1-5) e Deuteronômio (Deu 23, 13), regulamentando ao povo de Israel procedimentos corretos depois de tocar num cadáver, isolar pessoas com doenças infecciosas e eliminar fezes humanas de forma segura. Nessa  época os egípcios tratavam as feridas com excremento humano.
Com esses poucos exemplos citados já é possível verificar que a evolução da humanidade sempre esteve diretamente ligada ao tripé: Religião , Ciência e Tecnologia. Hoje sabemos que ao longo dessa evolução muitos cientistas, alguns deles divididos entre Ciência e Religião, tiveram importante participação, mesmo durante a tenebrosa inquisição. Pois, suas descobertas possibilitaram o progresso da vida humana em sociedade e muitas das transformações sociais se deram devido ao avanço científico que desde os primórdios da nossa história, principalmente, a partir da descoberta, do uso e da reprodução do fogo, assim como o uso de um simples galho de árvore para ampliar o braço humano e derrubar uma fruta, vem ocorrendo. Ou seja, podemos dizer que nos distintos períodos da história que antecederam a Revolução Científica[3], na Europa do início no século 17, vimos uma ciência voltada para os conhecimentos que poderiam explicar o Universo e seus fenômenos naturais e já nos períodos pós Revolução Científica veremos a consolidação do que se convencionou chamar Ciência Moderna. O embrião da Revolução foi a Renascença italiana, que apesar da posição contrária da Igreja Católica foi em frente e no início do século 18, toma forma o método científico, que passaria ser aplicado na busca de explicação dos fenômenos da natureza. Aqui dois personagens se destacaram Francis Bacon e René Descartes.
Nesse sentido, podemos concluir que a evolução da Ciência e da Tecnologia, ao longo da história da humanidade, transita por três fases distintas, até tornarem-se indissociáveis e, por que não dizer, centro da incansável busca pelo progresso humano. Tomaremos por base, para essas divisões em fases, a Revolução Industrial ou, segundo alguns historiadores, Revolução Tecnológica, que teve início na Inglaterra de 1740, século 18. Revolução esta que acontece devido aos avanços científicos e tecnológicos da época, pois, possibilitaram a introdução das máquinas no processo produtivo. A introdução da mecanização na produção, até então artesanal, dá origem as fábricas e por consequência inicia-se um modelo de organização do trabalho, agora de forma intensiva. Dessa forma podemos concluir que a primeira fase da evolução da Ciência e da Tecnologia ocorre no período que antecede a Revolução Industrial. A segunda fase acontece no período que vai da Revolução Industrial até a Segunda Guerra Mundial, século 20, e a terceira fase do avanço da Ciência e da Tecnologia, inicia-se com a Segunda Grande Guerra, também no século 20, até os nossos dias atuais.
Como podemos verificar, hoje, a introdução das máquinas nos setores produtivos ao longo dos anos, não só aumentou a velocidade do trabalho como também reduziu e até mesmo substituiu o homem no seu posto de trabalho. Sendo assim, a máquina e sua evolução através dos tempos passa ser o centro no processo econômico e produtivo. Nesse contexto, com a ampliação do crédito foi possível dinamizar e fortalecer o sistema capitalista em ascensão e o capital, sem sombra de dúvidas, sempre ficou nas mãos de uns poucos, numa roda viva que tem sustentação primeiro, no pilar econômico e segundo, no pilar político.
Mas, nos dias de hoje, num mundo dividido entre uma minoria de detentores do capital e uma maioria de desprovidos desse mesmo capital, é preciso fazer a seguinte reflexão: a Ciência e a Tecnologia estão a serviço de todos? A resposta a esse questionamento é, simplesmente, não. Agora, depois de respondida a questão, temos de tomar algumas atitudes, já que, o conhecimento científico, conforme observado, ao longo da história, não era privilégio de alguns grupos em detrimento de outros, mas ocorrera de maneira a favorecer melhores condições de vida a todos, assim, como os relatos do livro de Levítico[4]. Para tanto, é necessário que mudemos o nosso pensamento e comportamento no sentido de garantir, lá na frente, a longo prazo, uma nova humanidade. Proponho que essa mudança comece já, pois não é possível que fiquemos no famoso “jeitinho”, é preciso muito mais. É preciso construir um novo modo de viver e para alcançar esse objetivo o primeiro passo seria desenvolver entre nós a cultura do não consumismo, consequentemente, nos livrando das amarras da ideologia capitalista que só valoriza o ter em detrimento do ser.




Rio de Janeiro, 7 de novembro de 2015.


[1] De acordo com a UNESCO, "a ciência é o conjunto de conhecimentos organizados sobre os mecanismos de causalidade dos fatos observáveis, obtidos através do estudo objetivo dos fenômenos empíricos"; enquanto "a tecnologia é o conjunto de conhecimentos científicos ou empíricos diretamente aplicáveis à produção ou melhoria de bens ou serviços" (Reis, Dálcio Roberto, “Ciência e Tecnologia” in www.xadrezeduca.com.br/site/h4/).

[2] Os textos bíblicos citados são da Bíblia do peregrino da editora Paulus.

[3] A revolução científica moderna tem início com a obra de Nicolau Copérnico, Sobre a revolução dos orbes celestes (1543). Copérnico defende matematicamente um modelo de cosmo heliocêntrico, rompendo com o sistema geocêntrico formulado no século II por Cláudio Ptolomeu. Os filósofos René Descartes e Francis Bacon dedicaram suas obras as novas teorias científicas e ao modelo de ciência baseado no método científico da observação, da experimentação e verificação de hipóteses como critérios decisivos, destituindo de vez o argumento metafísico.

[4] O livro de Levítico é um tratado de higiene e saúde. Nessa época o povo vivia a Idade do Bronze (1500 a.C.). Estavam saindo do Egito, viajando a pé e acampando pelo caminho, com rebanhos e crianças imigrando para o Oriente Médio. As orientações visavam acomodar as necessidades e resguardar o povo de uma epidemia ou doença generalizada pelo acampamento. As medidas anunciadas são profiláticas visando primariamente a prevenção e a erradicação de microorganismos.




[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Óbvio e lógico, problemas para gestão escolar. João Crispim Victorio - CEBI Campo Grande (RJ)

Óbvio e lógico, problemas para gestão escolar.

João Crispim Victorio[i]

Tenho escutado, muitas vezes, o uso do termo “óbvio” ou “lógico” durante as conversas com meus pares, seja em situações informais na sala dos professores ou nas formais, nos Conselhos de Classes e Centros de Estudos. Mas qual o significado destas duas palavras? Refiro-me a relação que estas palavras, tão usadas de forma banal em nosso meio, têm com a ideologia neoliberal, carregada de preconceitos, discriminação e marginalização da pessoa humana.
Para tal missão recorri ao meu velho e bom amigo “Aurélio”, dele pude extrair que a palavra óbvio é um adjetivo que significa “o que salta à vista”, ou seja, o que é “claro”, e que a palavra lógico também é um adjetivo e significa “conforme à lógica”, “que raciocina com justeza” ou seja, o que é “coerente”, “natural” ou “inevitável”. Examinando ao “pé da letra”, parece ser muito simples o entendimento de ambos os significados, pessoas menos esclarecidas podem, até pensar: não vejo nada demais. Mas, em se tratando de educadores, pessoas que passaram em média quatro anos de suas vidas se preparando para o magistério, não dá para aceitar este pensamento tão simplista assim.
Devemos lembrar que a profissão docente exige, no mínimo, compreensão da organização social e política da nossa sociedade, da organização estrutural do nosso sistema de educação, além, do entendimento que, a educação não é um campo neutro ou apolítico, conforme muita gente acredita ser, ao contrário, educar é um ato político e, segundo Paulo Freire[1] (1997), “... pode implicar tanto o esforço da reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmascaramento”. Portanto, neste caso é interessante que fiquemos na ignorância, acreditando na impossibilidade de inverter sua lógica perversa de exclusão. Citando ainda, Paulo Freire, "como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha". Isso significa dizer que não é possível formar um indivíduo, trazê-lo à luz, para ser capaz de interferir na sociedade politicamente, como reza os documentos oficiais da educação brasileira, se o próprio educador ainda não entendeu o processo e só consegue enxergar sombras deformadas pela pouca luz que entra na sua caverna.
Um bom exemplo, para ilustrar o que estou falando, é quando, muitas das vezes, com olhar preconceituoso, julgamos nosso aluno pela aparência física, pela cor da pele, pelas roupas que veste ou pelo lugar onde mora. Nesse julgamento dizemos logo: “é óbvio que esse aluno não vai chegar a lugar algum. Não vai aprender nada”, “vai ser um analfabeto funcional”. Ora, estamos aqui seguindo a lógica do pensamento dominante e com que facilidade nos eximimos de nossa parcela de responsabilidade, enquanto educadores e membros ativos, que deveríamos ser, dessa sociedade cada vez mais injusta.  Para Paulo Freire (1997), “do ponto de vista dos interesses dominantes, não há dúvida de que a educação deve ser uma prática imobilizadora e ocultadora de verdades”. Sendo assim, não podemos aceitar como óbvio esse sistema de exclusão social, que nos é imposto por meio de uma escolarização pública deformada[2], orientada por organismos internacionais de ideologia neoliberal que quer manter o poder político nas mãos das elites intelectuais e financeira do nosso país. Precisamos reagir a essa situação, isso se faz urgente, para tanto é necessário entendermos a importância da nossa participação política nesse processo de mudança. Porém, para que as mudanças ocorram é necessário que façamos algumas pequenas modificações em nossa prática cotidiana, enquanto educadores, na sala de aula e enquanto gestores da unidade escolar. Pois sabemos que as grandes transformações, como por exemplo, a ruptura com o modelo atual de educação só ocorrerá quando nossa sociedade acordar e sair da ilusão do berço esplêndido.
Muitas das vezes agimos de forma equivocada e até mesmo ingênua, favorecendo o modelo perverso de exclusão, quando aderimos ao que é tido como óbvio na organização escolar. A formação das classes, por exemplo, achamos que se deva respeitar, principalmente, o critério da faixa etária do educando, o que nos parece lógico e, isso, vai se repetindo ao longo de sua permanência na escola. Ou seja, numa escola que forma seis turmas de quinto ano, a maioria dos educandos que compõem a 1501, seguirá assim até a 1901, as raras exceções são daqueles que por motivo de retenção ou evasão quebram essa sequência. Neste sentido, as primeiras turmas formadas, que compreende da 1501, provavelmente até a 1504, são consideradas, as com os “melhores” alunos. O óbvio, aqui, na verdade é que essa lógica gera consequências ruins, como a formação dos “guetos” por alunos rotulados bons, regulares e ruins. Além de parecer que é óbvio, os professores mais antigos, considerados dentro da lógica do justo, os mais preparados e experientes no domínio de turmas e de conteúdos, receberem como “prêmio” sempre as primeiras turmas, enquanto que os mais novos e inexperientes ficam com as outras. O resultado, muitas das vezes, é a exoneração precoce dos professores novos ou, pior, baixas na psiquiatria.
Estas atitudes seguidas, sem questionamentos, por professores e gestores, como óbvias, não me parece lógica em relação à coerência profissional. Sendo assim, não devemos montar turmas formadas apenas por alunos repetentes do ano anterior e por aqueles que, por algum motivo, se encontram defasados com relação ao ano de escolaridade e a idade. Este simples movimento extirparia do nosso meio um dos problemas mais grave que atrapalha, diretamente, a gestão escolar. Ao acabar com os “guetos” de alunos rotulados, que só favorecem a evasão escolar, estaremos melhorando as relações de convivência entre professores e alunos, professores e professores, alunos e alunos, numa situação de respeito e harmonia, até por que se queremos ser respeitados pelos alunos, devemos respeitá-los, também. De forma indireta, haverá melhoraria nas ocorrências dos mais variados tipos de violência que acontecem na escola e fora dela, o que facilitaria o desenvolvimento pedagógico do processo ensino-aprendizagem.
Precisamos pensar seriamente nisso. Somos formadores e o futuro dos jovens, queiramos ou não, depende de nós, das nossas atitudes e dos nossos exemplos enquanto cidadãos com direitos e deveres, enquanto seres humanos com necessidades de receber e dar carinho e enquanto professores cientes da nossa missão. Se nos sentimos desrespeitados pelo nosso sistema educacional, não é desrespeitando nossos alunos que vamos resolver o problema. Não é com atitudes corporativistas que vamos melhorar nossas condições de trabalho e de salário. As atitudes que tomamos, muitas das vezes, com base no óbvio e no lógico, podem ser uma armadilha, um tiro no próprio pé, pois, não podemos esquecer que as palavras não têm somente seus valores semânticos, mas também ideológicos no sistema vigente.

Rio de Janeiro, 10 de agosto de 2015.



[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.

[2] Deformada no sentido de querer manter um sistema de educação dual. Para os pobres basta saber ler, escrever e fazer as operações básicas da matemática e para os ricos um ensino que prepare para a graduação e a pós-graduação.



[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta.

sábado, 20 de junho de 2015

Debate - Poema de João Crispim Victorio - Cebi Campo Grande

Debate


Deus está vivo
Proclama o cristão
Deus está morto
Proclama o filósofo
Deus não existe
Insiste o ateu

Onde está Deus?
Pergunta o jovem doutor
Deus está entre nós
Responde o velho agricultor

Poema de João Crispim Victorio - Cebi Campo Grande
Extraído do livro: Sobre o Trabalho que Falo...

11 de junho de 2015.

domingo, 31 de maio de 2015

Sustentabilidade: Desafios de Convivência entre Humanos e Natureza. João Crispim Victorio / CEBI-RJ Sub-regional Campo Grande

Sustentabilidade: Desafios de Convivência entre Humanos e Natureza[1].

João Crispim Victorio[i] / CEBI-RJ Sub-regional Campo Grande

Podemos definir a Bíblia como sendo a Palavra de Deus dirigida à humanidade, mas não apenas como mandamentos ou meio de santificação. Pois, por meio de suas páginas, tanto nos livros do Antigo, quanto nos do Novo Testamento, podemos ter o imenso prazer de conhecer ensinamentos sobre preservação ambiental. Ou seja, a Bíblia pode nos ensinar tudo o que precisamos saber para ter e manter uma vida saudável no planeta. Nesse sentido, sustentabilidade[2] tem seu significado ligado à “espiritualidade” e, por esse motivo, a questão ambiental deve estar no cerne da vida humana.
O aparecimento do ser humano na Terra pode ser dado pela teoria criacionista, Deus criador do universo, conforme narram os livros bíblicos e pela teoria da evolução, defendida pela ciência, o homem como resultado de um lento processo de mudanças. Tomamos por base aqui a teoria criacionista com sua fantástica história que revela Deus, em sua ação criadora, como o agricultor, o jardineiro que cria e cuida do seu jardim e que, logo depois, cria o homem e a mulher, os cria da própria terra, sinalizando que são uma coisa só. Estão unidos para que a vida seja um processo de sustentabilidade.
Deus nos criou a sua imagem e semelhança e deu a nós autoridade para cuidar da sua criação. Com isso, mostrou a necessidade de preservar o meio ambiente e toda espécie de vida. Deus quer que sejamos sustentáveis em nossas ações, para tanto, devemos adquirir hábitos ecologicamente corretos. Esse é o grande desafio a ser enfrentado por cada pessoa na construção de uma sociedade justa e fraterna. Mas, Infelizmente, estamos longe de cumprir com nosso compromisso, pois, nossa prática cotidiana caminha em direção contrária, conforme denuncia nossa própria história.
Apesar de possuirmos uma relação muito íntima com a terra, já que é por meio dela que adquirimos nosso sustento, vemos na história cicatrizes profundas deixadas pelas lutas por terra. Lutas, essas, que estão presentes desde os primórdios, conforme podemos conferir no relato de (Gn 4, 1-16), onde Caim mata seu irmão Abel. Este fato nos mostra, de maneira figurada, o rompimento entre o campo e a cidade[3]. Abel era um pastor de ovelhas que Deus se agradou da oferta e Caim era um lavrador do qual Deus não se agradou da oferta. Caim, por seu ato, recebe o castigo. Sai e vai habitar a terra de Node e lá conhece sua mulher que da à luz a Enoque. Nesse clima surge a primeira cidade bíblica.
Ao longo da história da humanidade a relação do homem com a terra foi de lutas e de conquistas que causaram marcas profundas, sofrimentos, angústias e problemas ambientais graves. No Brasil, por exemplo, a luta pela terra tem início com a chegada dos portugueses que, arbitrariamente, tomaram posse das terras ocupadas pela população originária e fizeram isso com extrema violência. Até os dias atuais os problemas relacionados à terra não foram solucionados, ainda, temos os grandes latifúndios  improdutivos de um lado e do outro trabalhadores sem terra querendo produzir e viver da terra. Porém, nem tudo está perdido, o contrário também existiu e existe ainda, hoje. Vemos algumas iniciativas que provam a possibilidade de uma convivência harmoniosa e inteligente do humano com o planeta. E, portanto, partindo do princípio de que a terra e toda criação, em sua diversidade, é obra de Deus, o domínio da mesma não é poder exclusivo de alguns poucos, mas de todos. Já que, não somos os donos dos bens da natureza e a terra é a morada comum da humanidade.
A criação da Terra e da Humanidade, narradas de forma poética no livro do Gênesis, tem seu início quando  Deus diz: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra” (Gn 1, 26-27). A relação dialética entre o ser humano e natureza pressupõe uma existência e a sua sobrevivência, estabelecendo ao longo da história relações de transformações do meio ambiente. Mas não de transformações destrutivas ao meio ambiente, a relação ser humano e natureza se estabelece através do trabalho, um trabalho que domina e transforma para atender as necessidades individuais e coletivas (ARENDT, 1981)[4]. Mas o que vemos é a exigência de meio mais elaborado e tecnologicamente mais avançado de desenvolvimento resultando em devastação e destruição dos espaços.
A maneira de organização da sociedade capitalista moderna caracteriza um sistema de explorados e exploradores da força de trabalho. A racionalização associada ao processo industrial capitalista aniquila qualquer iniciativa de modo de organização social digna para todos. O bem estar, o meio ambiente, os valores sociais e éticos são rejeitados em nome do lucro máximo para a manutenção do capitalismo. Neste sentido, alerta Boff (2011)[5]:


Os trabalhadores são considerados como "recursos humanos" ou pior ainda "material humano" em função de uma meta de produção. Como se depreende, a visão é instrumental e mecanicista: pessoas, animais, plantas, minerais, enfim, todos os seres perdem sua autonomia relativa e seu valor intrínseco. São reduzidos a meros meios para um fim fixado subjetivamente pelo ser humano que se considera o centro e o rei do universo, Este quer enriquecer e acumular bens para si.

Em uma de suas crises o modelo capitalista buscou saída na globalização, ou seja, na homogeneização da economia mundial, segundo seu modelo de desenvolvimento que orienta a formação de sociedades que valorizem normas de eficiência para sustentação econômica e tecnológica. As desigualdades geradas pelo sistema capitalista e seus efeitos neoliberais geram problemas de exclusão social e de acesso a terra as famílias pobres. Assim sendo, temos o desafio de falar em desenvolvimento humano sustentável num mundo globalizado sob a égide do capitalismo. De construir alternativas que tornem possível uma sociedade capaz de satisfazer as necessidades atuais sem comprometer as gerações futuras, garantindo a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente a todos.
A terra vem dando claros sinais de enfraquecimento e de morte nos últimos tempos. O papel dos profetas foi e sempre será de nos advertir quanto saber interpretar os sinais de Deus através dos fenômenos da natureza. Deus, como criador, preocupou-se da humanidade entender o processo de manutenção da vida na terra. Por isso, Francisco de Assis, Chico Mendes, entre tantos outros, cada um há seu tempo, mostraram que a exploração sustentável do planeta é de responsabilidade de todos para que as futuras gerações tenham vida e vida em plenitude junto a Mãe Terra.

[1] O tema apresentado é em homenagem ao Dia Mundial do Meio Ambiente foi instituído no dia 5 de junho de 1972, durante a Conferência das Nações Unidas (ONU), sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo. A data escolhida tem como objetivo principal chamar a atenção de todas as esferas da população para os problemas ambientais e para a importância da preservação dos recursos naturais, que até então eram considerados, por muitos, inesgotáveis.

[2] O conceito de sustentabilidade que vamos usar neste trabalho é o empregado por Leonardo Boff: “Toda ação destinada a manter as condições energéticas, informacionais, físico-químicas que sustentam todos os seres, especialmente a Terra viva, a comunidade de vida e a vida humana, visando a sua continuidade e ainda a atender as necessidades da geração presente e das futuras de tal forma que o capital natural seja mantido e enriquecido em sua capacidade de regeneração, reprodução, e coevolução”. Faz-se necessário aqui salientar o conceito devido ao conflito entre as várias compreensões do que seja sustentabilidade. Por exemplo, na clássica definição da ONU, do relatório Brundland, (1987) sustentabilidade “é o que atende as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem a suas necessidades e aspirações”. Já o conceito mais comum e também jurídico está relacionado com a mentalidade, atitude ou estratégia ecologicamente correta, na diversidade cultural, viável a nível econômico e socialmente justa.

[3] Uma introdução à Bíblia. Formação do povo de Israel. Volume 2. 2ª ed. Ildo Bohn Gass (Org) RS: CEBI/Paulus 2011.

[4] ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro Forense, São Paulo, EDUSP, 1981.

[5] BOFF, Leonardo. Sustentabilidade e cuidado: um caminho a seguir. Junho de 2011. Disponível em: < http://leonardoboff.wordpress.com > Acesso em 21 de abril de 2014.


[i] Professor, Especialista em Educação e Poeta.