quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Contexto religioso do evangelho de João - O conflito na base da comunidade. Roberto e Afonso

                                  Contexto religioso do evangelho de João
                                   O conflito na base da comunidade.

                                                                                 Roberto e Afonso


1-     A confissão de fé em Jesus Cristo e o testemunho cristão no mundo nascem de um conflito concreto vivido pelas comunidades Joaninas.

A comunidade Joanina tem uma longa historia. A sua maneira de testemunhar o evangelho de Jesus Cristo atraia vários grupos de Judeus, e depois de pagãos. De fato a origem dessa comunidade está ligada ao “Discípulo Amado”. Este não era um dos doze, mas era discípulo e amigo de Jesus.
O tipo de pregação que a comunidade  fazia atraia, em primeiro lugar, os discípulos de João Batista, essênios e samaritanos; grupos esses que já tinham um certo preconceito em relação ao Templo de Jerusalém.
Atraíam também Judeus-Helenitas em peregrinação à Terra Santa  e que também tinham mais facilidade  de ver  a presença de Deus em seu povo através de Jesus Ressuscitado do que no templo de Jerusalém.
N medida em que a comunidade joanina ia desenvolvendo a sua cristologia (cf, Jo5,18ss), primeiro começou a ter problemas com os sacerdotes do Templo, depois  com os fariseus, e, finalmente, com as próprias comunidades fundadas pelos Doze. Com o correr do tempo, isso leva essa comunidade a sair da Palestina e a instalar-se na Ásia Menor. E a maioria dos comentadores acha que o local mais indicado para compreender a sua vida  e os seus conflitos é a cidade de Éfeso, na Ásia Menor.

2 -  Formação  da comunidade e Grupos religiosos ( anos 50 /80 aproximadamente).

A tradição situa as comunidades joaninas na região de Éfeso, na Ásia Menor (veja o mapa). A origem dessas comunidades não pode ser determinada com exatidão. Foram surgindo lentamente durante 30 anos aproximadamente. O Evangelho e as Cartas não nomeiam nem situam as comunidades geograficamente. No Apocalipse os capítulos 2 e 3 falam de sete (7) comunidades concretas ou igrejas (Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia, e Leocádia). Certamente as comunidades joaninas eram muito mais numerosas. A comunidade mais velha provavelmente era Éfeso, o ponto de partida para a expansão da mensagem cristã.
 Os grupos de origem das comunidades ligadas ao Discípulo Amado viviam na Palestina, provavelmente na Galiléia. Comunidades que foram se formando a partir de um grupo de cristãos de origem judaica. Comunidades acolhedoras que recebiam qualquer pessoa de qualquer procedência: os discípulos de João Batista (cf. Jo 1, 35ss), os samaritanos (cf. Jo 4), os helenista (cf. Jo 7, 35; 12, 20), os judeus expulsos da sinagoga (cf. Jo 9, 22; 12, 42. 16,2).
O que vem acarretar conflitos externos e confrontos inevitáveis (80 -100, aprox), mas essa pluralidade de culturas faz crescer e enriquecer a fé. A comunidade joanina é uma afluência de vários grupos com suas respectivas tradições religiosa.
a) Grupo  “mundo”
Essa palavra tem pelo menos 4 significados: existência, universo, humanidade e sociedade (sociedade corrompida, injusta e opressora). Trata-se da sociedade greco-romana, com suas leis, sua cultura, seu sistema político-econômico e principalmente, seu poderio militar. Naquele contexto histórico-social, o mundo em que se inseria a comunidade joanina tinha interesses coincidentes com o judaísmo formativo. O povo judeu jamais se conformara com a dominação romana.
b) Grupo “judeu”
         A palavra “judeu”, no Evangelho às vezes representa todo o povo judeu. Nesse caso, por trás escondem-se as autoridades do povo judeu, em parte responsáveis pela morte de Jesus e dos cristão no tempo em que o Evangelho está sendo escrito. Havia  os judeus da sinagora que erxpulsaram os cristãos (9,22) e também os judeus que criam em Jesus (2,23-25) .
c) Grupo  “seguidores de João Batista”
           Atos 19,1-7 dá a entender que, desde o ano de 54, em Éfeso, já havia seguidores de João Batista, personagem importante no Evangelho de João. Estudos recentes afirmam que o Prólogo (Jo 1,1-18), esse hino, na sua origem seria uma poesia dedicada a João Batista. De fato, examinando Jo, 1-18, nota-se que os versículos 6-8 e 15 são uma espécie de cunha, um acréscimo para esclarecer que João Batista é simples testemunha que leva as pessoas a crer em Jesus. Ele reconhece que deve diminuir até desaparecer, ao passo que Jesus deve crescer (3,30), e à medida que dá testemunho, se esvazia e perde discípulos (1, 35-39). Nessa dimensão, é sinal de que as comunidades joaninas tiveram sérios enfrentamentos com os seguidores de João Batista. Em 3,23-36 o problema é que Jesus batiza e tem mais discípulos que João.
d) Grupo  “criptocristãos” (cristãos “em cima do muro”)
         São pessoas que deram sua adesão a Jesus, mas têm medo de confessar publicamente a própria fé. Se fizessem seriam expulsos da sinagoga como o cego que Jesus curou na piscina de Siloé (Jo 9,1-38). Duas personagens do Evangelho de João representam bem esse grupo: são Nicodemos e José de Arimatéia. Os dois pertenciam à elite dos judeus. José de Arimatéia usa seu prestígio (talvez pagando propina) para convencer Pilatos a deixar que o corpo de Jesus seja retirado da cruz (Jo 19,38b). Os romanos deixavam os corpos apodrecendo na cruz, para servir de alerta a quem ousasse discordar do sistema, do “mundo”.
e) Grupo   “cristãos judeus de fé inadequada” (insuficiente)
         As comunidades do Discípulo Amado não poupam críticas a esse grupo em seu Evangelho. O grupo segue Jesus até servir aos próprios interesses. O trecho a seguir começa reclamando desse grupo e termina mostrando a desistência do mesmo (Jo 6,60-66).
f) Grupo  “cristãos das igrejas apostólicas” (hierarquizadas)
          As comunidades joaninas não tinham um poder centralizado e centralizador como as outras comunidades cristãs do fim do I século e início do II século. Eram extremamente fraternas e iguais. A imagem mais significativa a esse respeito é a da videira (Jesus) e os ramos (os fiéis) capítulo 15. Para entender basta observar o papel das mulheres no Evangelho de João. As comunidades joaninas reagem contra as igrejas hierarquizadas representadas por Pedro. Pedro ao encontrar-se com Jesus pela primeira vez recebe um desafio que é procurar a própria identidade, representada pelo nome que Jesus lhe impõe, Cefas. Mas Simão nunca é chamado de Cefas. Jesus o chamava se Simão, filho de João.  (21,15-19). Excetuado dois textos (Jo 6, 67-71) e o capítulo 21, que certamente são acréscimos posteriores, Pedro se debate constantemente à procura de um eixo que lhe dê equilíbrio.
g) Grupo dos dissidentes
Grupos com outras idéias, como helenizantes ou gnósticos, Mais que no Jesus historico, acreditavam no Jesus transfigurado.

3-  Conflitos da Comunidade 

      A comunidade enfrenta duas graves ameaças: a expulsão da sinagoga e a crise de fé. Para um judeu, a expulsão da sinagoga era uma verdadeira tragédia: era cortar suas raízes  sócio-religiosas. Era como degradá-lo. Privá-lo de seus direitos de cidadania e bani-lo. Grande parte dos membros da comunidade joanina vivia esse drama. (Por volta do ano de  85 os cristãos  , que atè então iam para as sinagogas discutir as leis e os profecias com os judeus, são expulsos. Esse conflito foi denominado Reunião de Jamnia, pois foi ali que os Judeus se reuniram e acrescentaram a décima nona “benção” – “Maldito todo aquele que segue o  Nazareno !”
      Mas o desafio maior vinha da própria fé na encarnação. Neste sentido, é muito ilustrativo o capitulo 6. Depois da partilha dos pães,  Jesus vai para cafarnaum. Ao percebê-lo, a multidão embarca, atravessa o lago e vai ao seu encontro. Questionado,  Jesus faz o belo discurso em que se identifica como o maná do deserto e se proclama o verdadeiro pão descido do céu. Explode então uma crise de fé e muitos o abandonam (Jo 6,60-66). (As dificuldades entre  cristãos e judeus  se acentuaram. Muitos abandonaram as sinagogas e assumiram a fè cristã, outros abandonaram as comunidades e se uniram definitivamente às sinagogas, seus lugares de origem.)
      Além disso, tem de defender-se da infiltração do gnosticismo e do docetismo que desviam da pratica cristã originária, vivida e proposta por jesus de Nazaré.  A doutrina gnóstica afirma que a pessoa humana se salva graças a um conhecimento religioso especial, secreto e individual.  Os gnósticos pretendiam ser iluminados e livres do pecado e das tentações.  Não davam nenhuma importância à prática comunitária de amor ao próximo.
       O docetismo negava a encarnação do Filho de Deus. Afirmava que a humanidade de Jesus não passava de uma aparência, não podia ser uma realidade objetiva porque não admitiam que Deus pudesse assumir a nossa condição humana.
       A comunidade joanina pode ser assim caracterizada: comunidade de periferia, sem poder, marginalizada e excluída do sistema. O cego de nascença, como representante da comunidade  è expulso da sinagoga( Jo 9). Os samaritanos, excluídos pelo judaísmo oficial, são acolhidos carinhosamente (Jo 4,41-42).

4- O Desaparecimento das Comunidades Joaninas.(por volta do ano 110)

        A parceria das comunidades joaninas com as igrejas hierarquizadas teve consequências claras. O conflito interno foi superado. O grupo que criava discórdia dentro das comunidades joaninas foi afastado e se incorporou ao gnosticismo fazendo uma leitura gnóstica do evangelho de João , o que reforçou a desconfiança das outras comunidades  cristãs em relação ao evangelho.
          As comunidades joaninas tiveram que ceder e se adaptar ao novo jeito de ser igreja.  Abandonaram o evangelho de João para adotar o de Mateus. Cederam com inteligência e criatividade ,  mas  o preço foi alto e fatal: pouco a pouco  foram absorvidas pelas comunidades hierarquizadas e diluíram se nelas.
            Foram acrescentados  ao evangelho de João alguns textos importantes referentes a figura  representativa de Pedro (Jo 6,67-71 e o capitulo21) e à Eucaristia( Jo 6,51-58).
            O evangelho de João passa por um longo processo de silencio e desconfiança. Muito tempo depois, alguns escritores cristãos sem preconceitos o recuperam sem a influência do gnosticismo.

5-  Conclusão

             O capitulo 21 do evangelho de João reflete essa tensão (hierarquia x poder serviço). Unir as duas maneiras de ser igreja é um desafio constante até hoje.                                                                                                                                
  

6- Anexos

                                  Anexo 1: o movimento gnóstico
             Para bem entender os escritos pós- apostólicos, convém conhecermos alguns pontos centrais do gnosticismo.
             A palavra  gnóstico vem de “gnose”, que em grego significa conhecimento. O gnosticismo é um movimento religioso e filosófico que já existia no mundo greco- romano quando surgiram as primeiras comunidades cristãs e que teve seu auge no segundo século. A doutrina desse movimento tem sua origem na filosofia grega e em diversas religiões e correntes espirituais. Era uma mistura de ideias  desde a cultura do Irã, da Babilônia, do Judaísmo e do Egito, incluindo o pensamento grego.
                Diferentemente do Judaísmo, que propunha a Lei como caminho de redenção, os gnósticos apresentavam o conhecimento divino como  caminho para a verdadeira salvação.  Conhecimento que não se alcançava somente por esforço humano, mas era recebido por meio de uma revelação divina  vinculada à faísca de Deus adormecidas nas pessoas, transformando-as inteiramente e conduzindo-as à vida verdadeira. Os adeptos do gnosticismo consideravam seu conhecimento superior ao das pessoas que não seguiam seu movimento.
               O pensamento gnóstico é fortemente dualista. Por um lado, vê o mundo, a matéria de forma muito negativa, sob o domínio das forças do mal, das trevas.  O corpo humano está nessa esfera.  Como todo o cosmos, incluindo o corpo humano, encontra-se nas trevas, governado por forças inimigas, entregue à perdição, às paixões.  A matéria como prisão das centelhas divinas
                  Por outro lado, está a luz divina, lugar de onde se originam as almas das pessoas, que estão adormecidas e presas nos corpos, na matéria.  Adquirir conhecimento capacita as pessoas para percorrer o caminho de volta à dimensão divina.
                      Nesse sentido, os gnósticos entendem a alma como um núcleo divino que se encontra prisioneiro no corpo das pessoas.  Para vencer seus prazeres, seu egoísmo e seus desejos carnais, o corpo devia ser desprezado e castigado, além de ser afastado de todas as coisas  materiais, o mundo.  Para se libertar ,  a alma precisa alcançar a sabedoria, o conhecimento.  Uma vez liberta, ela volta a fazer parte da esfera divina.
                      Esse pensamento também encontrou adeptos nas comunidades cristãs. Os gnósticos cristãos entendiam Jesus como o salvador que revela o conhecimento de Deus à humanidade.  Ele terá descido em forma humana.  No entanto, não era verdadeiramente homem.  Não teria passado pelo sofrimento e pela morte.   Propunham também um desprezo por tudo que tem a ver, segundo seu pensar, com as coisas terrenas como, por exemplo, o casamento (1 Tm 4,3).
                       Os gnósticos cristãos estavam preocupados com a busca da revelação do conhecimento divino e com o distanciamento de tudo que estava ligado às coisas materiais.  Afastavam-se de um Cristo encarnado na condição humana (1Jo 4,2-3; 2Jo 7) e envolvido na promoção da vida de quem estava à margem da  cidadania, tendo  que enfrentar, consequentemente, sérios conflitos com quem detinha o poder político, econômico e religioso.  Dessa forma os gnósticos cristãos promoviam um cristianismo voltado à busca da sabedoria.  Transformavam o evangelho do reino em uma religião que não representava nenhum perigo às estruturas desse mundo, limitando –se  demasiadamente à libertação interior, uma religião de elite, letrada e economicamente superior.
                  É possível que o mago simão de at 8,9-24 seja um gnóstico que se dizia ser portador da revelação divina.

                                     Anexo 2 : a expulsão da sinagoga.
                   A sinagoga tinha um papel central na vida das famílias  judias, particularmente na diáspora , onde surgiu.  Era a casa de oração , de adoração ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó.  Nela se guardavam os rolos da Torá, expressão máxima da presença de Deus depois que o Templo de Jerusalém foi ao chão. E Não só. Era também:                                                                                 
  1- o espaço de alfabetização e de estudo das escrituras;
2-o local de reunião em que eram discutidos e resolvidos os problemas internos da comunidade judaica;
3-o canal de comunicação entre a comunidade e as autoridades civis (com direito inclusive  a cobrar impostos para si e a recolhê-los para o império);
4- a responsável pelos recursos comunitários destinados  a aliviar as necessidades  dos abandonados (órfãos, viúvas e enfermos);
5-  a administradora do campo santo, único local onde os judeus se sentiam enterrados com dignidade fora de sua pátria.
                         Toda a vida das famílias judaicas girava em torno da sinagoga.  Colocar – se fora desinagoga ficavam proibidos de comprar e vender dos dissidentes.  Estes, por sua vez,  perdiam todos os direitos que somente por meio dela poderiam usufruir: educação, convívio cultural, participação politica, defesa diante dos desmandos do estado, assistência social... e até enterro!  Poucas coisas  podiam ser tão aterrorizantes como ter negado o direito a ser enterrado.  E as lideranças souberam usar bem essa situação para implementar  seu projeto.  O medo de ser expulso da sinagoga transparece em vários momentos do evangelho (Jo 9,22; 12,42 la ou ser expulso era uma desventura com consequências quase insuperáveis.  Sem  a mediação da sinagoga, os dissidentes não podiam aprender uma profissão.  Sofriam embargo econômico da própria comunidade.  Os judeus  que permanecessem fiéis ao cristianismo.

                   Trabalho apresentado por Roberto e Afonso durante o 1º seminário do grupo CEBI Graça de Duque de Caxias -que aconteceu no dia  25/01/15.



quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Benção para o Ano Novo

Que a água seja cristalina
que o vento sopre leve
que a chuva inspire poemas
que a mesa seja farta
que o vinho traga alegria
que a fé nunca falte
que a vida nos surpreenda
que nunca nos falte o desejo
         de recomeçar.


Autoria não identificada

sábado, 27 de dezembro de 2014

Reino de Deus: o que é? Fernando Henriques - Cebi Méier

CEBI MÉIER
Comunidade Renato Cadore

Reino de Deus: o que é?

Fernando Henriques
coordenador

“E Jesus continuou dizendo: ‘O Reino de Deus é como um homem que espalha a semente na terra. Depois ele dorme e acorda, noite e dia, e a semente vai brotando e crescendo, mas o homem não sabe como isso acontece. A terra produz fruto por si mesma: primeiro aparecem as folhas, depois a espiga e, por fim, os grãos enchem a espiga. Quando as espigas estão maduras, o homem corta com a foice, porque o tempo da colheita chegou’”. (Ev. Marcos 4, 26-29; edição pastoral)


    O Reino de Deus é como quando um homem lança a semente na sua terra. Enquanto dorme ou se levanta, de noite e de dia, a semente germina e cresce sem que ele saiba como (cf Marcos 4, 26-29). Jesus fala do reino para galileus pobres como ele, sem grande ilustração literária. Lavradores em sua maior parte. Acostumados a lidar com a terra. Jesus lhes fala utilizando imagens que eles conhecem muito bem: a semente jogada na terra, a germinação ainda misteriosa, o crescimento da planta, a floração, a espiga e o fruto que se faz maduro. É o tempo da ceifa, de colher o fruto da terra. Ninguém sabe realmente como todo o processo decorre, mas aqueles camponeses sabem que o seu trabalho aplicado à terra que o próprio Deus lhes deu assegura que a fome não será uma tormenta. Será festa no meio do povo. O mesmo acontece com o Reino de Deus. Já está atuando de maneira oculta e secreta. Só é preciso esperar que chegue a colheita. 
    A Boa Nova de Jesus foi a pregação da chegada do reinado de Deus, que ele mandou também seus discípulos anunciar. Para Jesus, o reino dos céus é a realização, aqui na terra, da vontade de Deus, que não é senão seu amor paterno, exigindo que nos tratemos como irmãos. Tal pregação leva Jesus a um radical questionamento da maneira formalista e egoísta em que estava sendo vivida a Lei de Moisés.
    O Reino é um presente precioso de Deus ao semeador. Mas é necessário que ele espalhe a semente, provisione água, cuide da terra. Deus faz o trabalho fundamental, mas quer que participemos dele. Com o trabalho que podemos fazer, não mais. Deus está fazendo crescer a vida, a colheita chegará com toda certeza. Cabe-nos ter paciência, nós, semeadores de todos os tempos. 
    Com o Reino de Deus acontece o mesmo que acontece com um grão de mostarda. É menor que qualquer semente que se semeia na terra; mas uma vez semeada, cresce e se torna maior que todos os arbustos (cf. Marcos, 4, 31-32). Jesus parece nos dizer para não esperarmos uma chegada triunfante do Reino, mas a procurá-lo nas coisas menores, miúdas, perceber o Deus misericordioso atuando já nas coisas pequenas e insignificantes.  Os pequenos e excluídos deste mundo vão se tornar os incluídos do Reino de Deus.
    Com o Reino de Deus acontece a mesma coisa que acontece com o fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo ficou levedado (cf. Lucas, 13, 20-21). O pão ázimo era considerado o símbolo perfeito do puro e santo. Entretanto Jesus desconcerta seus ouvintes ao falar da levedura que atua na massa para forjar o Reino de Deus. Talvez percebamos então porque Jesus se movimentava em meio a cegos, paralíticos, leprosos, publicanos e prostitutas, gente que não era pura e santa. Ao falar assim para aqueles despossuídos, Jesus procura despertar neles a alegria e a decisão diante da chegada do Reino de Deus. 
    O Reino de Deus é como um tesouro escondido num campo. Um homem que o encontrou volta a escondê-lo e, por causa da alegria que sente, vai, vende tudo o que tem e compra o campo (cf. Mateus, 13,44). Um homem, pobre agricultor, escava em terra alheia e encontra um tesouro. Não pode perder aquela oportunidade. Não pensa duas vezes. Vende tudo e se apropria do tesouro. Ao contrário do jovem rico aquele lavrador vende todos os bens e adentra o Reino. Essa oportunidade não pode ser desperdiçada.
   O Reino de Deus assemelha-se a um mercador que anda à procura de boas pérolas e que, ao encontrar uma pérola de grande valor, vai, vende tudo o que tem e a compra. (cf. Mateus, 13, 45-46). O homem não sofre de indecisão, age rápido, vende todos os bens e compra a pérola preciosa. O Reino de Deus é um tesouro oculto que escapa aos olhos de boa parte dos homens. Outras riquezas se fazem mais facilmente visíveis. Deus não impõe o seu Reino, mas o esconde, qual tesouro à espera para ser encontrado. “Assim fez para que buscassem a Deus e, talvez às apalpadelas, o encontrassem, a ele que na realidade não está longe de cada um de nós” (cf Atos 17, 27). O Reino está escondido para a maior parte de nós, mas não tão escondido que não o possamos achar. E quando isso se der, há que ter decisão. Comprar essa pérola tão valiosa.
   O Reino de Deus é como o pai que tinha dois filhos. E o mais moço disse-lhe: “Dá-me a parte dos bens que me cabem”. O pai repartiu as riquezas e o filho mais novo partiu a fim de viver a sua vida (cf Lc 15, 11-32). Este pai misericordioso, que também é mãe bondosa, espera ansiosamente pela volta daquele filho. E quando este volta há que se fazer festa. Aquele pai não julga o filho que dilapidara os bens, não pratica justiça, mas envolve-o de um enorme amor. Trata-o com misericórdia. Não usa de sua autoridade, mas de sua bondade. Aquele pai, que é verdadeira mãe, comove-se ao ver o filho humilhado e extenuado pela fome. Calça-lhe sandálias, veste-o com roupas dignas, põe-lhe um anel. Aquele filho estava morto e voltou à vida. Então chegamos nós. Nós, o filho mais velho. Não queremos amor e sim justiça. Na verdade queremos vingança. Aquele filho de nosso pai fez o que sempre quisemos fazer, mas faltou-nos a necessária coragem. Nós nos recusamos a entrar na casa paterna e desfrutar o banquete da vida. Nem todos queremos entrar no Reinado de Deus. Entretanto aquele pai, aquela mãe, nunca nos fecharão as portas. Amorosamente aguardarão que nos disponhamos a entrar. Nos convidarão quantas vezes se fizerem necessárias.
     Com o reino de Deus acontece o mesmo que acontece com um proprietário que saiu à primeira hora da manhã para contratar operários para sua vinha (cf Mt 20, 1-15). Ele não paga a cada um segundo a sua produção, isto é, o seu mérito. Ele paga aos trabalhadores segundo as suas necessidades. Os contratados da undécima hora eram os mais fracos, os mais velhos, os possivelmente doentes. Há lugar para eles no Reino, e um lugar que lhes dá dignidade. A bondade do proprietário passa por cima de qualquer suposta justiça. E essa bondade na verdade não prejudica ninguém. A todos ele dá o que cada um necessita para viver, ele atua com bondade e amor generoso para com todos. Na verdade no comportamento daquele proprietário a justiça e a misericórdia se entrelaçam. 

      O amor de Jesus pelos pobres e oprimidos não era um amor exclusivo. Era um indício do fato de que ele valorizava a humanidade e não o prestígio de qualquer pessoa. Os pobres e oprimidos não tinham nada que os recomendasse a não ser sua humanidade e seus sofrimentos, a sua miséria. Jesus também amava os ricos, não porque fossem pessoas especialmente importantes, mas porque elas também eram pessoas. Jesus queria que eles se despojassem de seus falsos valores, de sua riqueza e prestígio, a fim de se tornarem pessoas reais, pequenas, e assim poder adentrar o Reino.
     Na sociedade do tempo de Jesus, nascer mulher era uma desvantagem, um sinal de que as orações do pai e da mãe não tinham sido ouvidas por Javé. As mulheres, como as crianças, não contavam nada. Não podiam se tornar discípulas de um escriba, nem membros dos partidos político-religiosos dos fariseus, saduceus, essênios ou zelotas. O papel da mulher era serviço doméstico e maternidade. 
      Jesus se distinguiu entre seus contemporâneos, como alguém que dava às mulheres exatamente o mesmo valor e dignidade que aos homens. As mulheres eram pessoas e era só isso que contava para Jesus. 
      Do mesmo modo que os pobres não recebem a promessa da riqueza, mas da completa satisfação de suas necessidades, assim também os pequeninos não recebem a promessa de prestígio, mas o pleno reconhecimento de sua dignidade como seres humanos. Assim também as mulheres. Para realizar isso seria preciso reestruturar a sociedade de modo completo e radical.
      O reino de Deus será, portanto, uma sociedade na qual não haverá nenhum prestígio, nenhuma riqueza, nenhuma divisão de pessoas entre superiores e inferiores. Todos serão amados e respeitados, não devido à sua educação ou à sua riqueza, a seus antepassados, à sua autoridade, categoria, virtude ou qualquer outra realização, mas porque todos são igualmente pessoas.
   Aqueles que não possam suportar que mendigos, prostitutas, empregados, mulheres e crianças sejam tratados como seus iguais, aqueles que não possam viver sem se sentirem superiores, ao menos em relação a algumas pessoas, simplesmente não se sentirão em casa no reino de Deus. Esses vão querer se excluir do reino.

      As obras “Jesus aproximação histórica” (José Antonio Pagola, editora Vozes, Petrópolis, 4ª edição, 2011) e “Jesus antes do cristianismo” (Albert Nolan, editora Paulus, S.Paulo, 5ª edição, 2003) serão o texto-base para esta reflexão sobre o anúncio do profeta Jesus de Nazaré.
 
     A Comunidade Renato Cadore, o CEBI Méier, no mês de dezembro refletiu sobre o Reino de Deus.
Venha participar do nosso grupo em 2015!!!!

CEBI Méier (Casa Pe Dehon, sábados, de 8:30 às 12 horas). Retomaremos nossos estudos em março/2015.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

MENSAGEM DE NATAL DO CEBI-RJ E FELIZ 2015

Natal é a fé no amor divino embrulhado em forma humana.
Deus desceu os degraus do céu como um nenenzinho nos braços de sua mãe.
O Anjo Respondeu : “O Espírito Santo Virá Sobre Você , E O Poder Do Altíssimo Lhe Cobrirá Com Sua Sombra. Assim, aquele Que A De Nascer Será Chamado De Santo Filho De Deus[...] Pois Nada Para Deus É Impossível”  Lucas 1,35-37.

DESEJAMOS A TODOS UM FELIZ NATAL E UM 2015 CHEIO DE SAÚDE E VIDA

MARIA DE FÁTIMA, MARIA BATISTA E VALDECI DE OLIVEIRA - BIRO
SECRETARIADO DO CEBI-RJ


Benção para o Advento e Natal

Luiz Carlos Ramos



Deus-menino,

Vem, visita-nos neste tempo de tanta decepção;
pacifica-nos nesse tempo de tanta violência;
santifica-nos nesse tempo de tanta corrupção.

Desarma nosso coração;
desarma nossa mente;
desarma nossas mãos...

Envia tua benção sobre nós,
neste Natal
e no advento de  cada novo dia.

Em nome da esperança,
e do Espírito da paz,
e da comunhão fraterna.
Amém


Fonte: Rede Liturgia - CLAI

domingo, 21 de dezembro de 2014

Lembrando o Pr. Ernesto Barros Cardoso - Gleides - CEBI Nova Iguaçu

               Lembrando o Pr. Ernesto Barros Cardoso




No dia 19 de dezembro completaram dezenove anos que Ernesto Barros Cardoso não está mais entre nós.

Não está?

Quando entrava na Igreja da Candelária, no Rio, para participar da missa em lembrança dos oito meninos mortos nos arredores da igreja - a "chacina da Candelária" fui surpreendida ao ouvir "Deus chama a gente pra um momento novo".

Ernesto estava presente.

"Momento Novo" é uma das canções mais apreciadas pelos encontros ecumênicos e populares. Ela expressa o que sentimos, pensamos e desejamos: estarmos juntos na mesma roda, em defesa da vida, respondendo ao chamado de Deus. Unindo o cordão enfrentaremos as forças que produzem a morte em nosso bairro, cidade, país ... Sem discriminar, excluir ou julgar os que entram nessa roda. - Vem!

Lembrar do pastor Ernesto é lembrar não só dessa e outras canções mas, principalmente, de sua dedicação em colocar a criatividade a serviço da espiritualidade, a sensibilidade a serviço da liturgia, a poesia a serviço da vida.

Nas oficinas de música por ele promovidas o povo descobria seu talento e vivenciava a alegria da criação coletiva.

Foi pastor na Igreja Metodista em Jundiaí, SP, e criador em 1991 da Rede de Liturgia do Conselho Latino-Americano de Igrejas - CLAI - que tem como objetivo oferecer às igrejas recursos litúrgicos como orações, reflexões e poemas.

É considerado um dos maiores expoentes da renovação litúrgica latino-americana.

Já doente, foi membro do grupo consultivo de AIDS do Conselho Mundial de Igrejas - CMI - criado para ajudar as igrejas a abordar os complexos temas relacionados a AIDS e a sexualidade.

O irmão Ernesto estará sempre presente toda vez que, através da música, da poesia e orações nos unirmos numa grande roda de comunhão e fraternidade.
                                                                                                            

                                                                                         Gleides - CEBI Nova Iguaçu








domingo, 7 de dezembro de 2014

Evangelho de João - Maria do Carmo Cardoso - Grupo do Extensivo 2014

Curso extensivo -07/12/2014

                                  Evangelho de João

                                                                    Maria do  Carmo Cardoso
                                                 Assessoria: Obertal

Contexto histórico-geográfico

O evangelho de João que é chamado "Evangelho do Discípulo Amado," ficou pronto por volta do ano 100, ou seja, mais ou menos 70 anos depois da ressurreição de Jesus.
Muitas coisas aconteceram neste período que influenciaram a maneira de viver a fé em Jesus e transmitir as suas palavras.
Acontecimentos entre os anos 30 e 100, primeiro século da caminhada das comunidades cristãs: abertura para os samaritanos e pagãos que não eram judeus,resultando num Concílio por causa das tensões, por volta dos anos 50. O Concílio dispensou a observância da Lei de Moisés e a circuncisão para se ter a salvação de Jesus. Diminuição das testemunhas oculares de Jesus e surgimento de novas lideranças que não o conheceram provocaram novas tensões e dificuldades. Revolta dos judeus da Palestina contra o império romano resultou na destruição de Jerusalém. Esta guerra gerou uma grande crise religiosa dentro do judaísmo, que atingiu as comunidades cristãs. A partir dos anos 60, começa a perseguição às comunidades ( Nero ), que vai exigir maior organização e unificação para poder resistir e  sobreviver. A partir dos anos 70 por causa da evolução do conflito houve a separação entre judeus e cristãos. Os judeus não aceitavam Jesus como Messias e os cristãos não aceitavam mais a observância cega da Lei de Moisés.  No término da redação deste evangelho, os cristãos eram expulsos das sinagogas ( Jo 9,34 ).
Este evangelho foi sendo escrito aos poucos, dentro das etapas da história das comunidades que se reuniam em torno do Discípulo Amado.
Estas comunidades viviam na Palestina, provavelmente na Galileia. Reuniam judeus, galileus, samaritanos e helenistas. Eram abertas e acolhedoras; recebiam pessoas sem perguntar de onde vinham. Muitos foram discípulos de João Batista.

Autor

O texto fala de um "Discípulo Amado" ( Jo 13,23; 18,15; 19,26; 20,2.8; 21,7.20.24 e talvez Jo 1,35-40;  19,35 ). A tradição posterior identificou-o como o apóstolo João, filho de Zebedeu e irmão de Tiago ( Mc 1,19 ), e atribui a ele a autoria do quarto evangelho.
Um exame atento leva à conclusão de que é um judeu que conhece com particularidades as instituições judaicas e os acidentes topográficos da Palestina e de Jerusalém, no tempo de Jesus.
Não se sabe quando as pessoas começaram a congregar-se em comunidades ao redor dele. Provavelmente foi depois da ressurreição de Jesus. Ele era uma figura chave para estas comunidades, pois lhes transmitia seu testemunho sobre Jesus (Jo 19,35; 21,24) a partir da sua relação de amizade com ele e da sua experiência de fé no Cristo ressuscitado( 1 Jo 1, 1-4 ). 
O autor afirma com insistência, para garantir a verdade do que narra,ter sido testemunha ocular dos fatos ( Jo 1,14; 19,35 ), como o afirma também o autor da primeira epístola atribuída a S. João, a qual é como introdução e o complemento do seu evangelho ( 1 Jo1,1-3 ).
É um discípulo de João Batista, que se tornou um dos primeiros discípulos de Jesus;  pertence ao colégio apostólico e foi o discípulo predileto de Jesus.
Objetivo e teologia
Fazer ressaltar a divindade de Cristo. Para tal fim convergem tanto a elevação dos discursos, reproduzidos com os mesmos milagres narrados e o prólogo que se refere ao " Verbo que se fez carne, e nós vimos a sua glória como filho unigênito do Pai" ( Jo 1,14 ).
Os antigos Padres chamavam este evangelho de Evangelho Espiritual; os gregos deram a João o título de Teólogo.
Embora dê maior destaque ao aspecto divino, ele não se desvia do aspecto humano de Jesus que combina em tudo com o dos sinóticos.
Propõe-se a confirmar a fé em Jesus como Messias e Filho de Deus ( Jo 20,30-31 ). Destina-se aos cristãos, na sua maioria vindos do judaísmo, com dificuldades acerca da condição divina de Jesus e com apego exagerado às instituições religiosas judaicas que se apresentam como superadas ( Jo1,26-27; 2,19-22; 7,37-39; 19,36 ).
João pretende dar a chave da compreensão do mistério da pessoa e da obra salvadora de Jesus, sobretudo através do recurso constante às Escrituras " investigai as Escrituras ( ... ) são elas que dão testemunho a meu favor" ( Jo 5,39 ). É o evangelho com menos citações explícitas do AT, mas é o que  o tem mais presente, procurando das mais diversas maneiras extrair-lhe toda a riqueza e profundidade de sentido em favor de Jesus como Messias e Filho de Deus que cumpre tudo o que acerca dele estava anunciado por palavras e figuras ( Jo 19,28.30 ).
Além dos temas fundamentais da fé e do amor, contém a revelação mais completa dos mistérios da Santíssima Trindade e da Encarnação  do Verbo, o Filho no seio do Pai, o Filho Unigênito que nos torna filhos ( adotivos ) de Deus,a doutrina sobre a Igreja ( Jo 10,1-8;  15,1-17; 21,15-17 ) e os sacramentos ( Jo 3,1-8; 6,51-59; 20,22-23) e sobre o papel de Maria, a "mulher", a nova Eva,  a Mãe da nova humanidade resgatada ( Jo 2,1-5; 19,25-27 ).

Esquema

O evangelho está dividido em cinco partes. As duas divisões centrais são o Livro dos Sinais ( Jo 1,19-11,54 ), onde a hora de Jesus ainda não chegou (Jo 2,4 ), e o Livro da   Glorificação ( Jo 13,1-20,31). Entre estas duas divisões há a Dobradiça ou Transição ( Jo 11,55-12,50), em que Jesus anuncia que sua hora está chegando ( Jo 12,23 ). O Prólogo ( Jo 1,1-8) e o Epílogo ( Jo 21, 1-25 ) foram acrescentados mais tarde como introdução e conclusão.
As duas partes centrais também apresentam divisões:
1.Livro dos Sinais: pode ser dividido em duas partes. Na primeira, Jesus inicia a revelação de si mesmo e do Pai, realizando sinais ( Jo 1,19-4,54 ). A segunda parte insiste na tomada de posição frente a esta revelação.
Enquanto Jesus continua realizando mais cinco sinais, surgem por um lado, o conflito com os judeus e, por outro lado, a exigência da fé para as pessoas que o seguem ( Jo 5,1-11,54).
2.Livro da Glorificação: pode ser dividido em três partes. A primeira parte traz o discurso de despedida, que na verdade, é um longo diálogo entre Jesus e seus discípulos ( Jo 13,1-14,31 ). A segunda parte é uma inserção de outros diálogos com os discípulos ( Jo15,1-16,33 ) e uma longa oração de Jesus ao Pai pela comunidade,chamado Testamento de Jesus ( Jo17,1-26 ). Na terceira parte seguem a consumação e glorificação da vida e da obra de Jesus ( Jo 18,1-20,31)
Em João não encontramos os muitos milagres e nem as palavras de Jesus, narrados nos sinóticos. Nele  os sete  milagres são chamados de "sinais" e alguns discursos se desenvolvem lentamente, repetindo sempre os mesmos temas-chave.
O evangelho é uma espécie de meditação, que procura mostrar o conteúdo da catequese existente em sua comunidade.
Seu escrito visa  despertar e alimentar a fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus, a fim de que o ser humano tenha a vida ( Jo,30-31 ).
Para ele, Jesus é o enviado de Deus, aquele que revela o Pai aos homens.  Deus  ama a humanidade e quer dar-lhe vida. Jesus revela este amor e realiza a vontade do Pai, doando sua vida. João mostra isso através dos sete sinais apresentados na primeira  parte do evangelho, salientando aí a importância do compromisso da fé. Na segunda parte ele destaca a importância do amor, narrando o supremo sinal: a volta de Jesus ao Pai, através da morte e ressurreição.
A revelação de Deus em Jesus põe o mundo em julgamento. Os que vivem conforme a vontade de Deus aproximam-se de Jesus e o aceitam.Os outros se afastam dessa luz, rejeitando Jesus. João destaca as reações de aceitação, que levam à vida, e de recusa,que levam à morte. Recusa e hostilidade que levam Jesus à morte; aceitação que produz a primeira comunidade reunida em nome de Jesus.

Exegese

As comunidades por trás deste evangelho são formadas por grupos diferentes: judeus, de mentalidade aberta, com uma postura crítica em relação ao templo de Jerusalém ( Jo 2,13-22 ) e à lei ( Jo7,49-50 ); samaritanos ( Jo 4,1-42 )e pagãos ( Jo12,20 ) que se converteram, apesar de suas origens históricas e costumes culturais bem diferentes dos judeus.
Estas comunidades entenderam o seguimento de Jesus como uma vivência do amor concreto e solidário. Souberam relativizar os problemas de convivência entre pagãos e judeus que existiam em outras comunidades (At 15,5 ).  Estes grupos buscavam aprofundar a sua fé em Jesus como o enviado do Pai que quer fazer de todos irmãos e irmãs ( Jo15,12-14.17 ): "Na casa do meu Pai há muitas moradas !". Este aprofundamento facilitava o diálogo com outros grupos, pois eram comunidades abertas, tolerantes e ecumênicas ( Jo10,16 ).
A maior parte dos seus relatos é inédita em relação aos outros três evangelhos; o que sugere que o autor tivesse conhecimento do conteúdo deles ao escrever seu livro. Mais da metade dele é dedicado a feitos da vida de Jesus e as suas palavras nos seus últimos dias.
O evangelho é um convite a ter esperança e confiança no Deus que habita entre nós. É também um convite a ter um cuidado maior com a vida em todos os aspectos.
João 13, 1-17  ( O Lava-pés )
A ceia  narrada no evangelho de João é bem diferente da dos outros evangelhos. Ele não fala em comer o corpo e beber o sangue de Jesus.O pão e o vinho são substituídos pelo gesto de lavar os pés de seus discípulos. Gesto de amor e entrega que precede e conduz à sua glorificação. "Tendo amado os seus, Jesus amou-os até o fim" ( Jo 13,1 ). Este mandamento de serviço e de amor é que purifica qualquer pessoa que queira seguir Jesus  ( Jo 15,3 ).
O ato é feito durante a ceia ( Jo,13,2 ): ele se levanta, tira  o manto, que é gesto de entrega e de serviço ( Jo 13,4 ),e ele mesmo derrama a água na bacia para lavar os pés de seus discípulos. Pedro pensa ser um ritual de purificação, por isso não aceita o gesto de Jesus( Jo 13,6-11 ).Jesus o corrige, dando-lhe o sentido verdadeiro. O gesto do lava-pés significa que a verdadeira purificação acontece na entrega e no serviço ( Jo 13,10 ). Significa que Jesus é o Messias-Servo, anunciado por Isaías (Is 42,1-9 ). Se Pedro não aceitar tal gesto, não poderá estar em comunhão com Jesus ( Jo 13,8 ). Para Jesus, os que aceitam sua mensagem, suas palavras e seus gestos, estão puros e prontos para o Reino. Não é a Lei que purifica,mas a prática das palavras de Jesus.Quem for capaz de amar como Jesus amou, receberá o Espírito  que é serviço gratuito aos irmãos ( Jo 13,34-35 ).Ele deu o exemplo (Jo 13,15 ). Nem todos estavam puros ( Jo 13,11 ),mas o amor vence o ódio. 

Conclusão

Alguns temas importantes dos sinóticos não são mencionados neste evangelho: a infância de Jesus e as tentações, o sermão da montanha, o ensino em parábolas, as expulsões de demônios, a transfiguração e a instituição da eucaristia. Em contrapartida, somente João apresenta as alegorias do bom pastor, da porta, do grão de trigo e da videira; o discurso do pão da vida, o da ceia e a oração sacerdotal; os episódios das bodas de Caná, da ressurreição de Lázaro e do lava-pés; os diálogos com Nicodemos e com a samaritana. O vocabulário é reduzido, mas muito expressivo, de forte poder evocativo e profundo simbolismo, com muitas palavras-chave: verdade,luz, vida, amor, glória, mundo, julgamento, hora,água...
Ao incluir alguns termos aramaicos e uma sintaxe semita, mostra que é um escrito ligado à primitiva tradição oral palestinense. Por outro lado, os muitos pormenores relativos às instituições judaicas, à cronologia e geografia provam o rigor da informação, às vezes confirmada por descobertas arqueológicas. Sem as informações de João , não se poderiam entender corretamente os dados dos sinóticos.
Se fosse apenas uma obra teológica, o autor não teria o cuidado constante de ligar o relato às condições reais da vida de Jesus. 

Bibliografia

1. Apostilha: Estudo sobre o evangelho de João- Amor e fidelidade á missão
2. Bíblias: a) Gamma- tradução da Vulgata por Pe. Matos Soares
                         b) Jerusalém- Paulus - 1973
                         c)Pastoral- Paulus- 1990
      3.Lopes,Mercedes; Mesters, Carlos; Orofino,Francisco- Palavra na vida 147/148- Raio X da vida- Cebi- 2000
4.Rubeaux,Francisco- Mostra-nos o Pai- Uma leitura do quarto evangelho nº 20- 1989
5.Textos da internet     

domingo, 26 de outubro de 2014

"...porque um menino os conduzirá " Gleides - CEBI - Nova Iguaçu

  "...porque um menino os conduzirá "


          Com apenas 11 anos conduziu um ensaio da orquestra da rede NBC. Indignados, os instrumentistas o recepcionaram chupando pirulito, mas recuaram quando o menino-maestro interrompeu a orquestra para corrigir uma nota errada.
          Esse menino chamava-se Lorin Maazel, maestro e compositor franco-americano que comandou, entre outras, a Filarmônica de Nova York e a Ópera de Viena.
          Um menino precisou impor seu talento para ter sua importância reconhecida.
          As crianças estão no centro das atenções quando podem gerar grandes cifras para o comércio e campanhas publicitárias mas nunca são lembradas quando são assinadas as alianças de guerra, quando é despejado NAPALM sobre as aldeias, quando são bombardeados bairros, escolas e hospitais por terroristas de Estado ou de grupos a serviço de alguma ideologia.
          Estão sempre entre as vítimas da ignorância, do ódio, da pobreza, da ganância e da disputa pelo poder.
          Desde cedo são transformadas em refugiadas, empurradas para as fronteiras onde aprendem a lutar pela sobrevivência numa disputa cruel e injusta.
          Meninos e meninas escravas, no passado e no presente, perdem a infância e mesmo a vida em trabalhos insalubres e perigosos, vítimas da miséria de suas famílias e de empregadores inescrupulosos.
          Curumins morrem nas rodovias e nas aldeias sem atendimento médico.
          Mas, as crianças estão aí, frágeis e corajosas, indefesas e determinadas, desafiando-nos com sua presença ao nos lembrar que delas é o Reino dos Céus.

                                                                                    Gleides - CEBI - Nova Iguaçu